Roma Antiga · Mitos

Os gladiadores lutavam até a morte?

A resposta curta

Em geral, não. Gladiadores morriam, sim, mas lutadores treinados custavam caro, e muitas lutas terminavam com o perdedor poupado e mandado embora vivo, ou com os dois liberados de pé. Augusto chegou a proibir lutas sem direito a clemência. O famoso polegar para baixo também é incerto: os romanos falavam de um “polegar virado”, sem dizer para que lado.

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Um homem caro demais para matar

Um gladiador era um investimento. A maioria era de escravos, prisioneiros de guerra ou condenados; alguns eram homens livres que se vendiam por um pagamento. Eles treinavam por anos numa escola, o ludus, de um empresário chamado lanista, que os alugava para quem bancasse o espetáculo. Um manual de direito romano do século II, as Institutas de Gaio, discute o contrato comum: uma taxa por gladiador devolvido ileso e um preço muito maior por gladiador morto ou aleijado (3.146). Quem queria sangue pagava por ele.

Augusto apertou as regras. Suetônio diz que ele proibiu as lutas sine missione, sem dispensa, em que o combate só acabava com a morte de um dos dois (Augusto 45). Os lutadores formavam pares de tipos opostos, o retiarius, com rede e tridente, contra o secutor, de elmo fechado, e um árbitro com um bastão comprido ficava pronto para separá-los.

Como uma luta terminava

O gladiador vencido podia pedir clemência levantando um dedo. Quem pagava os jogos, o editor, decidia o destino dele, quase sempre ouvindo a multidão. Havia quatro resultados possíveis:

  • Vitória. O vencedor recebia um ramo de palmeira e o prêmio.
  • Missus. O perdedor era “mandado embora” vivo, para lutar outro dia.
  • Stantes missi. Os dois eram liberados de pé: um empate.
  • Morte. O perdedor era morto, ou morria dos ferimentos.

Os romanos anotavam o placar. Em Pompeia, cartazes pintados e grafites marcam cada nome com uma letra: V de vicit, venceu; M de missus, poupado; P de periit, morreu. Na inauguração do Coliseu, em 80 d.C., o poeta Marcial descreve dois astros da arena, Prisco e Vero, que lutaram tão parelhos e por tanto tempo que o imperador Tito encerrou o combate e deu aos dois a palma e a espada de madeira da aposentadoria. Os dois venceram.

Quantos morriam, então?

O bastante para encher cemitérios. Um cemitério de gladiadores achado em Éfeso, na Turquia, em 1993, guardava os ossos de dezenas de homens jovens. Muitos tinham ferimentos cicatrizados, sinal de bom cuidado médico, e alguns crânios mostram os golpes que os mataram. Os historiadores que contaram os resultados registrados acham que a maioria das lutas do século I terminava sem morte, e que as chances pioraram nos séculos seguintes.

Outras mortes na arena nem eram lutas. Ao meio-dia, entre as caçadas de feras e os gladiadores, condenados eram executados, jogados aos animais ou obrigados a se matar uns aos outros sem armadura. Sêneca, que entrou num espetáculo do meio-dia esperando graça e descanso, encontrou puro assassinato: os homens não tinham nada com que se proteger, e todo golpe acertava (Cartas 7).

Polegar para cima, polegar para baixo

O gesto que todo mundo conhece se apoia numa única expressão latina. O satírico Juvenal zomba de novos-ricos que bancam espetáculos e, quando o povo pede verso pollice, “com o polegar virado”, matam para agradar a plateia (Sátiras 3.36–37). Virado para onde? Ele não diz. Plínio, o Velho, cita um provérbio que manda apertar o polegar, pollices premere, para mostrar apoio (História Natural 28.25). Por isso alguns estudiosos acham que o polegar esticado, como uma lâmina, pedia a morte, e o polegar escondido no punho pedia clemência. Ninguém sabe.

O polegar para baixo veio muito depois. O poeta cristão Prudêncio, no século IV, imagina uma virgem vestal virando o polegar para mandar matar um homem caído. Jean-Léon Gérôme pintou a cena em 1872, no quadro Pollice Verso, com vestais de branco apontando o polegar para baixo; o quadro está no Museu de Arte de Phoenix. Hollywood fez o resto, até o Gladiador de Ridley Scott, em 2000.

“Os que vão morrer te saúdam”

A outra frase famosa é mais rara ainda. Suetônio registra Ave, imperator, morituri te salutant, “Salve, imperador, os que vão morrer te saúdam”, uma única vez: em 52 d.C., dita por homens prestes a travar uma batalha naval de mentira no lago Fucino, para Cláudio. Ele respondeu “Ou não”, eles entenderam que estavam perdoados e se recusaram a lutar, até serem obrigados (Cláudio 21). Nenhum escritor antigo diz que os gladiadores saudavam o imperador assim antes de cada espetáculo.

Fontes

  • Juvenal, Sátiras 3.36–37
  • Suetônio, Augusto 45 e Cláudio 21
  • Marcial, Livro dos Espetáculos (Prisco e Vero); Sêneca, Cartas 7
  • Gaio, Institutas 3.146; Plínio, o Velho, História Natural 28.25
  • Prudêncio, Contra Símaco, livro 2
  • Jean-Léon Gérôme, Pollice Verso (1872), Museu de Arte de Phoenix