A resposta curta
Significa manter o povo satisfeito com benefícios e diversão, no lugar de poder real ou bom governo. A expressão vem do poeta satírico romano Juvenal, no começo do século II d.C. O povo romano, zombou ele, que antes distribuía comandos e legiões, agora só deseja ansiosamente duas coisas: panem et circenses, pão e jogos de circo.
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Onde Juvenal diz isso
A frase está na décima sátira de Juvenal, um poema sobre as bobagens que as pessoas pedem aos deuses. Ele descreve a queda de Sejano, o ministro todo-poderoso do imperador Tibério, executado em 31 d.C. Ontem a multidão o teria aclamado imperador. Hoje as estátuas dele descem puxadas por cordas, para virar panelas. E o povo? Segue a sorte, como sempre, diz Juvenal, e odeia quem caiu. Então vêm os versos famosos: o povo que antes distribuía comandos militares, altos cargos, legiões, tudo, agora se contém e deseja ansiosamente só duas coisas, panem et circenses (Sátiras 10.77–81).
O alvo dele é político. As eleições já tinham sido assunto do povo. Em 14 d.C., no começo do reinado de Tibério, conta Tácito, elas passaram do Campo de Marte para o Senado, e o povo só reclamou em murmúrios à toa (Anais 1.15). Juvenal diz isso com todas as letras: desde que não há mais votos para vender, o povo largou as preocupações. Ele não está dizendo que os pobres eram gananciosos. Está dizendo que cidadãos sem voz deixaram de se importar com qualquer coisa além de comida e espetáculo.
O pão
O pão era de verdade, embora por séculos tenha sido trigo, não pão assado. Em 123 a.C. o tribuno Caio Graco deu aos cidadãos de Roma o direito de comprar trigo a um preço baixo e fixo. Em 58 a.C. o tribuno Clódio o tornou gratuito. Sob os imperadores, uns duzentos mil cidadãos homens da cidade tinham lugar na lista e recebiam uma ração mensal. Só nos anos 270 o imperador Aureliano trocou o trigo por pão assado, e acrescentou carne de porco e azeite.
Não era assistência aos pobres no sentido moderno. A lista era para cidadãos, não para os escravos e estrangeiros que formavam boa parte da cidade, e um lugar nela era um privilégio guardado e passado adiante. Quantas pessoas viviam em Roma é uma conta feita em parte a partir dessa lista.
O circo
Circenses não são gladiadores. A palavra quer dizer os jogos do circo, as corridas de carros, e o maior circo era o Circo Máximo, uma pista de uns 600 metros no vale abaixo do Palatino, muito maior que o Coliseu. Os romanos eram fanáticos pelas quatro equipes de corrida: os Azuis, os Verdes, os Vermelhos e os Brancos, quase torcidas organizadas. Sob os imperadores os espetáculos se multiplicaram: corridas, peças, caçadas de feras e gladiadores, pagos pelo imperador e pelos magistrados.
O orador Frontão, professor de Marco Aurélio, resumiu a política sem rodeios. Ele elogiou Trajano por saber que o povo romano se segura sobretudo por duas coisas, o abastecimento de trigo e os espetáculos (Princípios da História 17). O que Juvenal ridicularizou, Frontão admirou.
Como a expressão é usada hoje
No Brasil, “pão e circo” é acusação política corriqueira: um governo compra sossego com benefícios e festas enquanto os problemas de verdade ficam onde estão. Ela volta a cada Copa do Mundo, Olimpíada ou carnaval caro. Em 1968 virou até disco: Tropicália ou Panis et Circencis, o manifesto da Tropicália, com a canção “Panis et Circenses”, de Caetano Veloso e Gilberto Gil, gravada pelos Mutantes. E o país de Jogos Vorazes, Panem, tira o nome da frase de Juvenal.
Os historiadores acrescentam uma nota que Juvenal deixou de fora. Os espetáculos eram também o único lugar em que o povo ficava cara a cara com o governante, às dezenas de milhares, e usava isso. Em 32 d.C., conta Tácito, o preço alto do trigo provocou dias de cobranças no teatro, gritadas contra o imperador com mais ousadia que de costume (Anais 6.13). Pão e circo deixavam Roma quieta. Também lhe davam voz.
Fontes
- Juvenal, Sátiras 10.56–81
- Tácito, Anais 1.15 e 6.13
- Frontão, Princípios da História 17
- História Augusta, Vida de Aureliano
- Tropicália ou Panis et Circencis (1968)