A resposta curta
Um vão. Na Teogonia de Hesíodo, escrita por volta de 700 a.C., o Caos é a primeira coisa que surge: um espaço vazio, escancarado, e não uma bagunça. Depois dele vêm a Terra, o Tártaro e Eros, e do próprio Caos nascem o Érebo e a Noite. O sentido de desordem veio mais tarde, com poetas latinos como Ovídio.
Revisado em
As Musas no Hélicon
Hesíodo abre a Teogonia, o poema do nascimento dos deuses, com um encontro. Ele cuidava de ovelhas no monte Hélicon quando as Musas lhe falaram, com um aviso sobre histórias: “Sabemos dizer muitas falsidades como se fossem verdades; mas sabemos, quando queremos, proclamar a verdade.” Então ele pede que lhe contem “qual deles surgiu primeiro” (Teogonia 114–115). A resposta começa com um vão:
Em verdade, primeiro de tudo surgiu o Caos, e depois a Terra de amplo seio, alicerce sempre firme de todos os imortais que ocupam os picos do Olimpo nevado
Um vão, não uma bagunça
A palavra grega chaos vem da mesma raiz de verbos que querem dizer abrir-se, escancarar, bocejar, a raiz que também deu chasma, abismo. O Caos de Hesíodo é uma abertura: espaço vazio e escuro, antes que qualquer coisa ocupe o lugar. O poeta nunca diz de que ele é feito, e nunca diz que a Terra saiu dele. O Caos simplesmente surgiu primeiro, e a Terra veio em seguida.
O vão continua no poema. Na guerra dos deuses, o calor dos raios de Zeus chega até o Caos (Teogonia 700), e os Titãs vencidos vão morar “além do Caos sombrio” (814), no fundo escuro do mundo. Séculos depois, Aristóteles leu o primeiro verso de Hesíodo como prova de que as coisas precisam de um lugar antes de existir (Física 4.1).
O que veio depois
Depois do Caos, Hesíodo enumera a Terra, o chão firme dos deuses; o sombrio Tártaro, lá no fundo, abaixo dela; e Eros, “o mais belo entre os deuses imortais”, que amolece os membros e domina a mente de deuses e homens (Teogonia 116–122). O Caos tem então filhos próprios: o Érebo, a escuridão debaixo da terra, e a Noite negra, que dá à luz o Éter, o ar luminoso do alto, e o Dia (123–125).
A Terra, Gaia em grego, faz o resto. Sozinha, gera o Céu estrelado, Urano, “igual a ela, para cobri-la por todos os lados” (126–127), e depois as montanhas e o mar. Com o Céu, tem os Titãs, os Ciclopes e os Cem-Mãos, a família cujas brigas enchem o resto do poema (Titãs e deuses do Olimpo). O nome dela sobrevive na hipótese Gaia, que James Lovelock formulou nos anos 1970 e que vê a Terra como um único sistema vivo.
Como caos virou bagunça
A mudança veio por Roma. Ovídio abre as Metamorfoses com outro Caos, que não é um vão vazio, e sim uma mistura de tudo ao mesmo tempo:
Antes que surgissem o mar e a terra, antes que o céu cobrisse tudo, a face da Natureza, numa vasta extensão, não era mais que o Caos, uniforme e deserto. Era uma massa bruta e informe, nada além de um peso inerte; e todos os elementos em discórdia, confusos, se amontoavam ali numa pilha sem forma.
O deus de Ovídio então separa a pilha em terra, mar e céu. Ovídio foi lido nas escolas de toda a Europa na Idade Média e no Renascimento, e a pilha dele, mais do que o vão de Hesíodo, deu à palavra o sentido moderno de confusão. No século XVII, o químico flamengo Jan Baptist van Helmont chegou a tirar dela a palavra gás. O Caos de Hesíodo é mais antigo e mais estranho: não uma bagunça à espera de arrumação, mas espaço para um mundo começar. Desse começo, em Hesíodo, saiu também a deusa da espuma.
Fontes
- Hesíodo, Teogonia 22–35, 104–138, 700 e 807–819
- Ovídio, Metamorfoses 1.5–75
- Aristóteles, Física 4.1 (208b)