A resposta curta
É a carta que o escrivão Pero Vaz de Caminha terminou em Porto Seguro, em 1º de maio de 1500, para contar ao rei dom Manuel o que a frota de Cabral tinha achado: a terra, a gente, a primeira missa e nenhum ouro. São 27 páginas, guardadas na Torre do Tombo e impressas só 317 anos depois.
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Quem escreveu
Pero Vaz de Caminha, de uns cinquenta anos, vinha de uma família de funcionários do Porto. Tinha sido mestre da balança da Casa da Moeda da cidade e embarcou com Cabral para ser escrivão da feitoria que Portugal queria abrir em Calicute, na Índia. Não era navegador nem padre. Escreveu como quem presta contas: prometeu ao rei não pôr na carta mais do que “aquilo que vi e me pareceu”, e cumpriu. Muita gente chama o resultado de certidão de nascimento do Brasil.
Dez dias em Porto Seguro
A carta acompanha a estada da frota quase como um diário:
- 22 de abril: às horas de véspera, surge no horizonte um monte alto e redondo, o Monte Pascoal.
- 23 de abril: Nicolau Coelho troca um barrete vermelho por um cocar de penas, numa praia onde ninguém entende a língua do outro.
- 26 de abril: frei Henrique de Coimbra reza a primeira missa no ilhéu da Coroa Vermelha; da praia, os moradores olham, tocam e dançam.
- 1º de maio: os portugueses erguem uma grande cruz com as armas do rei, e os moradores ajudam a levantá-la.
Caminha olha tudo de perto. Os homens da terra são “pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes”. Andam nus, sem vergonha nenhuma, e trazem um osso atravessado no lábio de baixo. Dois deles dormem na nau do capitão. Um olha o colar de ouro de Cabral e aponta para a terra, e os portugueses querem acreditar que ali há ouro. O escrivão anota a própria torcida: “isto tomávamos nós assim, pelo desejarmos”. Mostram-lhes uma galinha, e eles quase têm medo dela.
Ouro e almas
O melhor fruto que nela se pode fazer me parece que será salvar esta gente.
É o resumo para o rei: ouro, nenhum à vista; almas, muitas. Os capitães resolvem não levar ninguém à força. Deixam em terra dois degredados, que dariam “melhor e muito melhor informação da terra” do que homens arrancados de casa, que dizem sim a tudo. E, na última página, Caminha muda de assunto e pede um favor pessoal: que o rei mande trazer da ilha de São Tomé o genro, Jorge de Osório, que cumpria degredo lá. A primeira carta sobre o Brasil termina com um pedido de família.
317 anos na gaveta
Em 2 de maio, a frota seguiu para a Índia, e um navio levou a carta para Lisboa. Caminha morreu meses depois, provavelmente no ataque à feitoria de Calicute, em dezembro de 1500. As 14 folhas foram parar na Torre do Tombo, onde estão até hoje. Foram redescobertas em 1773 e só saíram impressas em 1817, no Rio, na Corografia Brazilica do padre Manuel Aires de Casal, que cortou os trechos sobre a nudez. Desde 2005, a carta é Memória do Mundo da UNESCO.
Ela também virou imagem. Em 1860, em Paris, Victor Meirelles pintou a Primeira Missa no Brasil usando a carta como guia, e é esse quadro que todo brasileiro viu no livro da escola. Os historiadores da arte observam que é uma cena do Império: o Brasil nascendo em paz, sob a cruz, e os indígenas quietos, à margem. A frase mais famosa atribuída a Caminha, aliás, não está na carta: veja “Em se plantando, tudo dá” está na carta de Caminha?
Fontes
- Pero Vaz de Caminha, carta a dom Manuel, Porto Seguro, 1º de maio de 1500, Arquivo Nacional da Torre do Tombo, Lisboa (Gavetas, gav. 8, mç. 2, n.º 8)
- Manuel Aires de Casal, Corografia Brazilica (Rio de Janeiro, Impressão Régia, 1817)
- Victor Meirelles, Primeira Missa no Brasil (1860), Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro
- Jaime Cortesão, A carta de Pero Vaz de Caminha (1943)