História do Brasil · Fatos

O que foi a Revolução de 1930?

A resposta curta

Foi o movimento armado que derrubou Washington Luís e levou Getúlio Vargas ao poder. Começou em Porto Alegre, em 3 de outubro de 1930, após a crise do café, uma eleição com fraude dos dois lados e o assassinato de João Pessoa. Em 24 de outubro, generais depuseram o presidente no Rio; Getúlio assumiu em 3 de novembro.

Revisado em

O acordo que se quebrou

Na Primeira República, os presidentes saíam quase sempre de São Paulo ou de Minas Gerais, num revezamento que ficou conhecido como política do café com leite: São Paulo entrava com o café, Minas com o leite. Em 1929, o presidente Washington Luís quebrou a regra e indicou outro paulista, Júlio Prestes, para a sucessão. Minas reagiu e formou a Aliança Liberal com o Rio Grande do Sul e a Paraíba. O candidato foi o governador gaúcho, Getúlio Vargas; o vice, o governador paraibano, João Pessoa.

Em outubro de 1929, a Bolsa de Nova York quebrou, e o preço do café, que sustentava o país, despencou. Em 1º de março de 1930, Júlio Prestes venceu. O voto era aberto, e houve fraude dos dois lados. Getúlio pareceu aceitar a derrota. Os mais jovens da Aliança, não.

O crime da Confeitaria Glória

Recife, 26 de julho de 1930. João Pessoa está na Confeitaria Glória, na rua Nova, quando o advogado paraibano João Dantas entra e atira nele. Pessoa morre. Dantas era inimigo político e pessoal dele: pouco antes, a polícia da Paraíba tinha invadido o escritório de Dantas e publicado as cartas íntimas dele.

Muita gente aprendeu que João Pessoa foi morto a mando do governo federal. Não foi. O crime nasceu de uma briga local, como mostra Fernando Melo, biógrafo de Dantas. Mas a Aliança fez de Pessoa um mártir e pôs a culpa em Washington Luís. No Rio, o enterro reuniu uma multidão. A capital da Paraíba ganhou o nome dele, e a bandeira do estado, a palavra com que ele tinha recusado apoio a Júlio Prestes: “Nego”.

“Aproxima-se a hora”

Em 3 de outubro, no palácio do governo, em Porto Alegre, Getúlio abre o diário e escreve:

Quatro e meia. Aproxima-se a hora. Examino-me e sinto-me com o espírito tranquilo de quem joga um lance decisivo porque não encontrou outra saída digna para seu estado.

Getúlio Vargas, diário, Porto Alegre, 3 de outubro de 1930

Às cinco e meia da tarde, os rebeldes tomam o quartel-general. A revolta se espalha por Minas Gerais e pelo Nordeste, e trens lotados de soldados gaúchos sobem rumo a São Paulo. Todos esperam o grande choque em Itararé, na divisa com o Paraná.

A batalha que não houve

O choque nunca veio. Houve combates menores, mas em 24 de outubro, no Rio, generais depuseram Washington Luís para evitar a guerra civil, e a multidão incendiou jornais do governo. Itararé virou “a batalha que não houve”, e um humorista passou a assinar Barão de Itararé. A junta militar chegou a pensar em ficar no poder, mas Oswaldo Aranha, o braço direito de Getúlio, voou para o Rio e negociou a entrega. Júlio Prestes, o eleito, nunca tomou posse e foi para o exílio.

Em 31 de outubro, Getúlio chegou ao Rio de trem, de farda e chapéu. Os soldados gaúchos cumpriram a promessa e amarraram os cavalos no obelisco da avenida Rio Branco. Em 3 de novembro, no Palácio do Catete, ele assumiu o Governo Provisório.

Revolução ou golpe?

O nome que ficou foi Revolução de 1930, e a mudança foi real: o café com leite acabou, e Getúlio ficaria 15 anos no poder (Quem foi Getúlio Vargas?). Mas, como observa Boris Fausto, a vitória veio de uma deposição decidida por generais na capital. E o governo “provisório” logo fechou, por decreto, o Congresso, as assembleias e as câmaras municipais, e nomeou interventores nos estados. Provisório até quando? Ninguém dizia. São Paulo respondeu em armas dois anos depois, na Revolução Constitucionalista de 1932.

Fontes

  • Getúlio Vargas, Diário, anotação de 3 de outubro de 1930 (CPDOC/FGV, 1995)
  • Boris Fausto, A Revolução de 1930 (1970)
  • Fernando Melo, João Dantas (2002)
  • CPDOC/FGV, Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, verbete sobre Oswaldo Aranha