A resposta curta
Foi a derrubada do presidente João Goulart, o Jango, por militares com apoio civil, entre 31 de março e 2 de abril de 1964. Tropas saíram de Juiz de Fora rumo ao Rio, quase ninguém defendeu o governo, e o Congresso declarou vaga a Presidência com Jango ainda no país. Começava a ditadura militar, que durou até 1985.
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O país partido
Em março de 1964, o Brasil está dividido ao meio. No dia 13, Jango assina decretos de reforma diante de mais de cem mil pessoas, na Central do Brasil. No dia 19, a Marcha da Família com Deus pela Liberdade leva centenas de milhares de pessoas às ruas de São Paulo, muitas de terço na mão, pedindo que o país seja salvo do comunismo. É o auge da Guerra Fria, cinco anos depois da revolução cubana.
Aí a crise chega aos quartéis. Cerca de dois mil marinheiros se rebelam num sindicato do Rio, e o governo os anistia. Para muitos oficiais, a hierarquia acabou. Na noite de 30 de março, Jango discursa para sargentos no Automóvel Clube.
Três dias que derrubaram um governo
Naquela madrugada, em Juiz de Fora, o general Olímpio Mourão Filho, de 63 anos, decide não esperar mais. Em 31 de março, põe as tropas de Minas a caminho do Rio, com o apoio do governador Magalhães Pinto. É o mesmo Mourão que forjou o Plano Cohen em 1937, o falso plano comunista usado para justificar o Estado Novo. No Rio, o general Castelo Branco, que coordena a conspiração, acha a marcha precipitada.
Não faz diferença. Em 1º de abril, quase nenhuma tropa sai em defesa do governo. O Segundo Exército, em São Paulo, adere, e tanques ocupam o centro do Rio, diante da mesma Central do Brasil do comício. Jango voa para Brasília e, à noite, para Porto Alegre. Não quer uma guerra civil.
Na madrugada de 2 de abril, o presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, declara vaga a Presidência, como se Jango tivesse deixado o país. Não tinha: um ofício lido na própria sessão dizia que ele estava em Porto Alegre. Sob protestos, o presidente da Câmara, Ranieri Mazzilli, toma posse.
Não foi só militar
O golpe teve apoio civil amplo. Os governadores de Minas, da Guanabara e de São Paulo estavam com ele. Os grandes jornais pediam a saída de Jango, e o Correio da Manhã estampou: “Fora!”. Empresários, grupos católicos, associações de mulheres e políticos de oposição estavam do mesmo lado, e parte da Igreja também. No mar, os Estados Unidos mandaram navios, com um porta-aviões, na Operação Brother Sam, para o caso de haver resistência. Não houve, e os navios voltaram.
Por que aconteceu
Cada lado contou de um jeito. Para quem apoiou, era preciso salvar o país do comunismo, da corrupção e da inflação, e os vencedores chamaram o movimento de Revolução de 1964. Para os aliados de Jango, as reformas de base prometiam um país menos desigual, e o golpe veio para barrá-las. Historiadores e a Comissão Nacional da Verdade falam em golpe porque um presidente constitucional foi derrubado pela força, fora das regras da Constituição de 1946. A disputa pelo nome tem página própria: 1964 foi golpe ou revolução?.
Em 11 de abril, o Congresso elegeu Castelo Branco presidente, com 361 votos. Um deles foi o do senador Juscelino Kubitschek, que o novo regime cassaria dois meses depois. A intervenção que prometia ser curta virou uma ditadura de 21 anos.
Fontes
- Ato Institucional de 9 de abril de 1964
- Comissão Nacional da Verdade, Relatório, volume I (dezembro de 2014)
- Resolução do Congresso Nacional nº 4, de 2013 (anula a declaração de vacância de 2 de abril de 1964)
- Elio Gaspari, A ditadura envergonhada (2002)
- Carlos Fico, O golpe de 1964: momentos decisivos (2014)