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Quem foi João Goulart, o Jango?

A resposta curta

João Goulart, o Jango, foi presidente do Brasil de 1961 a 1964. Gaúcho de São Borja, herdeiro político de Getúlio Vargas, assumiu depois da renúncia de Jânio Quadros, primeiro com poderes cortados pelo parlamentarismo. Defendeu as reformas de base, foi deposto pelo golpe de 1964 e morreu no exílio, na Argentina, em 1976.

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O herdeiro de Getúlio

João Belchior Marques Goulart nasceu em 1919 em São Borja, na fronteira gaúcha com a Argentina, filho de fazendeiros. Era conterrâneo de Getúlio Vargas, entrou na política pelo PTB, o partido getulista, e foi ministro do Trabalho no segundo governo dele. Em agosto de 1954, foi Jango quem leu a carta-testamento à beira do túmulo de Getúlio.

Depois, foi eleito vice-presidente duas vezes, em 1955 e em 1960. Naquela época, o voto para vice era separado do voto para presidente. Em 1960, os eleitores escolheram Jânio Quadros para presidente e Jango, da chapa adversária, para vice.

A posse que quase não houve

Em 25 de agosto de 1961, com menos de sete meses de governo, Jânio renuncia com um bilhete. Jango está numa missão oficial à China comunista e recebe a notícia em Cingapura. Em Brasília, os três ministros militares vetam a posse: para eles, Jango abriria as portas aos comunistas.

O Rio Grande do Sul reage. O governador Leonel Brizola, cunhado de Jango, cerca o Palácio Piratini de sacos de areia e, dos porões, comanda a Rede da Legalidade, que fala pelo rádio para o país inteiro em defesa da Constituição. O Terceiro Exército adere. Com o país à beira da guerra civil, o Congresso encontra uma saída às pressas em 2 de setembro: o parlamentarismo. Jango assume em 7 de setembro de 1961, mas quem governa é um primeiro-ministro, Tancredo Neves.

Jango passa um ano e meio tentando desfazer o arranjo e consegue. No referendo de 6 de janeiro de 1963, que ficou conhecido como plebiscito, mais de 9 milhões de eleitores votam pela volta do presidencialismo, contra cerca de 2 milhões.

As reformas de base

Com o poder de volta, ele aposta nas reformas de base: a reforma agrária acima de tudo, mudanças nos impostos, nos bancos, nas cidades e nas universidades, e o voto dos analfabetos. Na sexta-feira, 13 de março de 1964, diante de mais de cem mil pessoas na Central do Brasil, no Rio, assina dois decretos. Um desapropria terras à beira das rodovias federais. O outro encampa as refinarias de petróleo particulares. Uns ouvem esperança. Outros, ameaça. Seis dias depois, centenas de milhares marcham em São Paulo contra o governo.

Deposição e exílio

Em menos de três semanas, ele cai. As tropas saem de Minas em 31 de março, quase ninguém defende o governo, e Jango voa para Porto Alegre para não arrastar o país a uma guerra civil. Na madrugada de 2 de abril, o Congresso declara vaga a Presidência com ele ainda no Brasil. Os três dias estão contados em O que foi o golpe de 1964?. Dias depois, cruza para o Uruguai, e o nome dele entra na primeira lista de cassados do novo regime.

Vive o exílio no Uruguai e na Argentina. Morre em Mercedes, na Argentina, em 6 de dezembro de 1976, o único presidente brasileiro a morrer no exílio. Volta a São Borja num caixão, para a cidade onde tinha lido a carta de Getúlio. Em 2013, os restos foram exumados: a perícia da Polícia Federal não encontrou veneno, mas disse que não podia descartar a hipótese. No mesmo ano, o Congresso anulou a declaração de vacância de 1964.

Fontes

  • Emenda Constitucional nº 4, de 2 de setembro de 1961 (institui o parlamentarismo)
  • Tribunal Superior Eleitoral, resultado do referendo de 6 de janeiro de 1963
  • Resolução do Congresso Nacional nº 4, de 2013 (anula a declaração de vacância de 2 de abril de 1964)
  • Jorge Ferreira, João Goulart: uma biografia (2011)
  • Boris Fausto, História do Brasil (1994)