A resposta curta
Getúlio Vargas. É a última frase da carta-testamento, datilografada e assinada, que ele deixou no Palácio do Catete em 24 de agosto de 1954, o dia em que tirou a própria vida. Em poucas horas, o rádio leu a carta para o país inteiro, e a frase final nunca mais saiu da memória dos brasileiros.
Revisado em
Um texto para ser ouvido
Muita gente imagina a carta-testamento como um bilhete de despedida. Não é. É um texto político, escrito para ser lido em voz alta, e foi exatamente isso que aconteceu: em poucas horas, as rádios a leram para o Brasil inteiro. Naquela manhã, Getúlio deixou dois papéis: um bilhete escrito à mão e uma carta datilografada e assinada. A frase famosa está na carta.
O que a carta diz
Getúlio escreve como um homem cercado, que acusa os adversários de não lhe darem chance de defesa:
Não me acusam, me insultam; não me combatem, caluniam. E não me dão o direito de defesa. Precisam sufocar a minha voz e impedir a minha ação, para que eu não continue a defender, como sempre defendi, o povo e principalmente os humildes.
Depois ele se apresenta como defensor do país contra quem o explorava: “Lutei contra a espoliação do Brasil. Lutei contra a espoliação do povo.” Espoliação quer dizer saque, roubo de bens. O texto dá exemplos: fala dos lucros das empresas estrangeiras, da revisão do salário mínimo e da Petrobras, criada no ano anterior. Não é à toa que muita gente liga o presidente ao petróleo, como mostra ‘O petróleo é nosso’ foi slogan de Getúlio Vargas?
Na mesma carta aparece outra frase que muita gente conhece sem saber a origem: “Ao ódio respondo com o perdão.” Também é dele.
A última linha
A carta termina com a frase que o país guardou: “Saio da vida para entrar na História.” É uma frase política, como o resto do texto: nela, Getúlio diz como quer ser lembrado, como o defensor dos humildes que os adversários não deixaram governar. Os adversários, claro, tinham outra versão.
Os fatos daquele agosto, do atentado da rua Tonelero ao enterro, estão em Como Getúlio Vargas morreu?
Quem leu a carta
Primeiro, o rádio, ainda no dia 24. Depois, em 26 de agosto, no enterro em São Borja, a cidade onde Getúlio nasceu. Diante da multidão, um gaúcho de 35 anos desdobrou o papel e leu tudo em voz alta: João Goulart, o Jango, que tinha sido ministro do Trabalho de Getúlio. Quem era ele está em Quem foi João Goulart, o Jango?
No Herald, a frase dá nome à história inteira: “Getúlio Vargas: Saio da vida para entrar na história”. Mas a carta é a versão do próprio Getúlio. Se ele foi o pai dos pobres ou o ditador do Estado Novo, os historiadores respondem que foi as duas coisas, e as provas de cada lado estão em Getúlio Vargas foi pai dos pobres ou ditador?
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Fontes
- Getúlio Vargas, carta-testamento, Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1954 (Arquivo Getúlio Vargas, CPDOC/FGV)
- CPDOC/FGV, Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, verbete sobre Getúlio Vargas
- Lira Neto, Getúlio, volume 3, 1945–1954 (2014)