A resposta curta
São os cadernos pessoais do imperador romano Marco Aurélio, escritos em grego por volta de 170 a 180 d.C., em parte em acampamentos militares no Danúbio. Em doze livros curtos, ele lembra a si mesmo como um estoico deve viver: julgar com calma, cumprir o dever, tratar os outros com justiça, lembrar da morte. Não eram para ninguém ler.
Revisado em
Um livro sem título
Marco Aurélio nunca chamou o texto de Meditações. Até onde se sabe, não lhe deu título nenhum. Os manuscritos o encabeçam com Ta eis heauton, algo como “as coisas para si mesmo”, e mesmo isso pode ser rótulo de copista. O nome que pegou vem da primeira tradução inglesa, de Meric Casaubon, em 1634, que apresentava as “meditações” do imperador sobre si mesmo.
Também não é um diário. Não há datas e quase não há acontecimentos: nada de batalhas, nomes de inimigos ou notícias de Roma. Está mais para um caderno de exercícios de filósofo. As mesmas poucas verdades voltam de novo e de novo, com palavras diferentes, escritas para estarem à mão quando ele precisasse.
Por que em grego, e onde
Marco Aurélio era um romano que falava latim no Senado e nas cartas. Mas, para um romano culto do século II, filosofia se fazia em grego, a língua de Platão e dos mestres estoicos que ele estudava desde menino. O ex-escravo Epicteto, cujas ideias atravessam o livro inteiro, tinha ensinado em grego, e Marco pensava com aquele vocabulário.
Duas anotações de lugar sobreviveram no texto. Uma, no fim do Livro 1, diz “Entre os quados, junto ao Granua”, um rio na atual Eslováquia, ao norte do Danúbio. Outra, “Isto em Carnunto”, nomeia a fortaleza legionária a leste da atual Viena. Ou seja, pelo menos parte foi escrita em campanha, durante as guerras contra povos germânicos nos anos 170, na última década da vida dele.
O que tem dentro
Os doze livros são desiguais. Alguns trechos têm uma linha só; outros ocupam uma página. O Livro 1 é diferente dos demais: uma lista do que ele devia a cada pessoa que o formou, do avô ao pai adotivo, Antonino Pio, terminando com um agradecimento aos deuses. Os outros onze giram em torno de poucos temas:
- O julgamento. Tire a opinião de que você foi prejudicado, e o prejuízo desaparece (4.7).
- Os outros. Comece cada manhã esperando encontrar o intrometido, o ingrato e o arrogante, e lembre que eles agem por não saber o que é o bem e o mal. Fomos feitos para trabalhar juntos, como as duas fileiras de dentes (2.1).
- O dever. Quando não tiver coragem de sair da cama, diga a si mesmo que está se levantando para fazer o trabalho de um ser humano (5.1).
- A morte e o tempo. Alexandre, o Grande, e o seu tropeiro acabaram no mesmo estado (6.24). Não viva como se tivesse dez mil anos pela frente (4.17).
- O refúgio interior. As pessoas procuram retiro no campo ou na praia, mas você pode se recolher na própria mente a qualquer hora (4.3).
Como o livro sobreviveu
Por séculos, o livro quase sumiu. No século III, o historiador Herodiano elogiou os ditos e escritos de Marco que ainda circulavam, o que talvez o inclua. Em 364, o orador Temístio disse a um imperador que ele não precisava das exortações de Marco. O primeiro rastro seguro vem de Aretas, bispo bizantino e colecionador de livros, que antes de 907 escreveu que tinha uma cópia velha do livro tão proveitoso do imperador, tão velha que se desfazia, e mandou copiá-la. A Suda, uma enciclopédia bizantina do fim do século X, já o conhece em doze livros.
O texto que lemos depende de dois manuscritos. Um, da biblioteca de Heidelberg, foi impresso em Zurique em 1559 por Wilhelm Xylander, com tradução latina, e depois se perdeu. O outro, copiado no século XIV, está na Biblioteca Vaticana, quase completo, mas cheio de erros. Dessas duas testemunhas machucadas saíram todas as traduções desde então, e um caderno particular virou um dos livros de filosofia antiga mais lidos do mundo.
Fontes
- Marco Aurélio, Meditações 1.1–17, 2.1, 4.3, 4.7, 4.17, 5.1 e 6.24
- Aretas de Cesareia, carta a Demétrio de Heracleia (antes de 907); Suda, verbete “Marco”
- Codex Vaticanus Graecus 1950, Biblioteca Vaticana; primeira edição de Xylander (Zurique, 1559)
- Meric Casaubon, Marcus Aurelius Antoninus the Roman Emperor, His Meditations Concerning Himselfe (Londres, 1634)
- Pierre Hadot, La Citadelle intérieure: introduction aux Pensées de Marc Aurèle (1992)