A resposta curta
O Eid al-Adha, a Festa do Sacrifício, recorda a disposição de Abraão de sacrificar o filho por ordem de Deus e o carneiro que Deus deu no lugar do menino. Os muçulmanos, que quase sempre identificam o filho como Ismael, a celebram em 10 de Dhu al-Hijjah, no fim da peregrinação a Meca, sacrificando um animal e repartindo a carne.
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A história por trás da festa
Em árabe, Eid al-Adha quer dizer “festa do sacrifício”. A história é a prova de Abraão, que os muçulmanos chamam de Ibrahim, contada na surata 37 do Alcorão. Ibrahim vê em sonho que está sacrificando o filho e conta ao menino, que responde: faça o que lhe foi ordenado. Quando o pai o deita no chão, Deus o chama, diz que a visão já se cumpriu e resgata o filho com um grande sacrifício (37:102–107). O Alcorão não diz o nome do menino. A maioria dos muçulmanos entende que era Ismail, o Ismael da Bíblia, enquanto o Gênesis fala de Isaque. A diferença tem uma página só dela: Isaque ou Ismael?
O Gênesis conta o desfecho assim:
Abraão levantou os olhos, olhou, e viu que atrás dele havia um carneiro preso pelos chifres em um arbusto. Abraão foi, pegou o carneiro e o ofereceu como holocausto em lugar de seu filho.
A festa guarda, então, duas lembranças juntas: um pai disposto a entregar o que mais amava e um Deus que não aceitou a entrega. Cada animal oferecido no Eid faz as vezes daquele carneiro.
Quando cai
O Eid al-Adha começa no dia 10 de Dhu al-Hijjah, o último mês do ano islâmico, que é o mês da peregrinação. Na véspera, os peregrinos passam o dia em oração na planície de Arafat, nos arredores de Meca. Como o calendário islâmico segue a lua e tem uns onze dias a menos que o ano solar, a festa chega mais cedo a cada ano e percorre todas as estações em cerca de 33 anos. Dura três ou quatro dias e é a maior das duas festas do islã; a outra, o Eid al-Fitr, encerra o jejum do Ramadã. O nome muda conforme o país: Kurban Bayramı na Turquia, Tabaski na África Ocidental, Bakrid no sul da Ásia.
O sacrifício e a carne
O dia começa com uma oração especial, muitas vezes ao ar livre. Depois, as famílias que podem pagar sacrificam um carneiro, um bode, uma vaca ou um camelo. A oferta se chama udhiyah, ou qurbani em boa parte da Ásia, e o animal precisa ser sadio e ter idade mínima. A tradição recomenda repartir a carne em três: uma parte para a casa, outra para parentes e vizinhos, outra para os pobres. Hoje muitas famílias da cidade pagam uma entidade beneficente para fazer o sacrifício e entregar a carne a quem precisa. O Alcorão diz com todas as letras que nem a carne nem o sangue chegam a Deus, só a devoção de quem oferece (22:37).
Nos passos da família de Abraão
O Eid cai durante a peregrinação porque a tradição islâmica liga o Hajj à casa de Abraão. Segundo o Alcorão, Ibrahim e Ismail levantaram juntos os alicerces da Caaba (2:127). Os peregrinos caminham sete vezes entre as colinas de Safa e Marwah, refazendo a busca de Hajar, a Agar da Bíblia, por água para o filho. Em Mina, atiram pedrinhas em pilares onde, diz a tradição, Satanás tentou desviar Ibrahim, e no dia do Eid também sacrificam, junto com os muçulmanos do mundo inteiro. Nenhum desses lugares está no Gênesis, que põe a prova num monte da “terra de Moriá” (22:2), mais tarde identificado com Jerusalém (2 Crônicas 3:1).
Uma história, três calendários
O mesmo capítulo atravessa o ano de três religiões. Os judeus leem a amarração de Isaque no Rosh Hashaná, o ano-novo, quando se toca o shofar, um chifre de carneiro (por que essa leitura). Os católicos e muitos outros cristãos leem Gênesis 22 na Vigília Pascal e veem em Isaque carregando a lenha um sinal da cruz. Os muçulmanos se reúnem para o Eid al-Adha. Cada um conta a história do seu jeito. Nas três, a faca para no ar.
Fontes
- Gênesis 22:1–19; 2 Crônicas 3:1
- Alcorão 37:99–113; 22:34–37; 2:125–127, 158
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.