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Por que Abraão é considerado o pai de três religiões?

A resposta curta

Porque judaísmo, cristianismo e islamismo remontam a ele. Os judeus o veem como antepassado, por meio de Isaque e Jacó. Os cristãos, seguindo Paulo, o chamam de “pai de todos os que creem”. Os muçulmanos o honram como Ibrahim, profeta que se voltou para o Deus único e ergueu a Caaba, em Meca, com o filho Ismail.

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Uma promessa maior que uma família

A ideia já está nas primeiras palavras de Deus a Abrão.

Abençoarei os que o abençoarem, e amaldiçoarei aquele que o tratar com desprezo. Todas as famílias da terra serão abençoadas por meio de você.

Gênesis 12:3

Mais tarde Deus diz a ele: “Você será o pai de uma multidão de nações” (17:4). E a promessa alcança os dois filhos. Isaque leva adiante a aliança, mas sobre Ismael Deus diz: “farei dele uma grande nação” (17:20). Hoje três religiões reivindicam esse pai, cada uma do seu jeito: pela descendência, pela fé, pela submissão. Somadas, reúnem mais da metade da humanidade.

Judaísmo: Abraão, nosso pai

Os judeus o chamam de Avraham avinu, Abraão, nosso pai, o primeiro dos três patriarcas. A oração central do judaísmo, a Amidá, começa bendizendo o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó, e o sinal da aliança, a circuncisão no oitavo dia, continua vivo como brit milá. Os profetas falam a Israel como filhos dele: “Olhem para Abraão, seu pai, e para Sara, que lhes deu à luz” (Isaías 51:2).

Mas não é só questão de sangue. Quem se converte ao judaísmo recebe um nome hebraico como filho ou filha de Abraão, nosso pai. No século XII, um convertido chamado Obadias perguntou a Maimônides se podia rezar ao Deus dos nossos pais, e o grande rabino respondeu que sim: Abraão é pai de todos os que chegam à fé.

Cristianismo: pai de todos os que creem

O Novo Testamento abre com o “Livro da genealogia de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mateus 1:1). João Batista avisa o povo que não adianta se apoiar no nome: Deus pode tirar filhos de Abraão até das pedras (Mateus 3:9). Paulo constrói o argumento cristão em cima da ordem do Gênesis. Abraão creu no capítulo 15, anos antes de ser circuncidado, no capítulo 17.

Ele recebeu o sinal da circuncisão como selo da justiça da fé que tinha quando ainda era incircunciso, para que fosse o pai de todos os que creem

Romanos 4:11

Para Paulo, isso faz de Abraão o pai também dos não judeus que creem: “se vocês são de Cristo, então são descendência de Abraão” (Gálatas 3:29). A missa católica ainda o chama de pai na fé.

Islã: Ibrahim, o amigo de Deus

O Alcorão cita Ibrahim muitas vezes, e a surata 14 leva o nome dele. Conta que o jovem Ibrahim olhou uma estrela, depois a lua, depois o sol, e se afastou de cada um quando se pôs, para se voltar ao Criador dos céus e da terra (6:74–79). Diz que ele não era judeu nem cristão, mas hanif, reto, alguém que se submeteu a Deus (3:67), que Deus o tomou como amigo, khalil (4:125), e apresenta o islã como volta à religião dele (16:123). Com o filho Ismail, Ibrahim levantou os alicerces da Caaba (2:127), e pela tradição islâmica os árabes descendem de Ismail. Em toda oração diária, o muçulmano pede a Deus que abençoe Maomé como abençoou Ibrahim e a família dele, e no Eid al-Adha recorda a prova que ele enfrentou.

Um pai, histórias diferentes

Ter o mesmo pai não quer dizer contar a mesma história. O Gênesis diz que o filho levado ao Moriá era Isaque; a maior parte da tradição muçulmana diz Ismail (qual dos dois?). Os judeus põem o peso na aliança e na descendência, os cristãos na fé, os muçulmanos na submissão. O rótulo “religiões abraâmicas” é moderno, e há estudiosos que acham que ele apaga diferenças reais.

Mesmo assim, o pai comum tem endereço. Em Hebrom, a caverna onde Isaque e Ismael o sepultaram juntos (Gênesis 25:9) é sagrada para judeus e muçulmanos. Em 1965, a declaração Nostra Aetate, do Concílio Vaticano II, reconheceu que os muçulmanos ligam a sua fé a Abraão. E em 2021 o papa Francisco foi a Ur, a cidade de Abraão, rezar com líderes de várias religiões.

Fontes

  • Gênesis 12:1–3; 15:6; 17:1–27; 21:13; 25:9
  • Isaías 51:2; Mateus 1:1; 3:9; Romanos 4:9–16; Gálatas 3:6–9, 29
  • Alcorão 2:124–127; 3:65–68; 4:125; 6:74–79; 16:120–123
  • Maimônides, Carta a Obadias, o prosélito
  • Concílio Vaticano II, Nostra Aetate 3 (1965)

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.