A resposta curta
Significa “liberdade ainda que tardia”, na tradução livre que ficou famosa. É um pedaço de um verso de Virgílio, das Bucólicas, que o poeta Alvarenga Peixoto propôs para a bandeira da república sonhada pelos inconfidentes. Ao pé da letra, a frase está incompleta: falta o verbo. Hoje o lema está na bandeira de Minas Gerais.
Revisado em
Palavra por palavra
São quatro palavras em latim. Libertas é liberdade. Quae é o pronome relativo, equivalente ao nosso que. Sera é o feminino de serus, tardio, e concorda com libertas: uma liberdade que chega tarde. Tamen quer dizer contudo, ainda assim. É fácil ler sera como o nosso será, mas a palavra não tem nada a ver com o futuro.
Juntas, as quatro palavras dão algo como liberdade que, tardia, ainda assim, e param aí. Falta o verbo. Por isso a tradução que ficou, liberdade ainda que tardia, é livre. E funciona bem: guarda a ideia de uma liberdade que demora, mas vem.
O verso inteiro
O lema corta ao meio o verso 27 da primeira das Bucólicas, os poemas pastoris que Virgílio escreveu no século I a.C. Quem fala é Títiro, um pastor já velho. O verso completo é Libertas, quae sera tamen respexit inertem: a liberdade, que, embora tardia, olhou para mim, parado como eu estava. No verso seguinte, Títiro conta que isso aconteceu quando a barba já lhe caía branca sob a navalha.
Na leitura mais comum, Títiro é um escravizado que, depois de velho, enfim conquista a alforria. O verso fala da liberdade de um homem, não de um país.
Quem escolheu o lema
A escolha saiu de uma conversa de Vila Rica, numa das reuniões em que os conspiradores de 1788 e 1789 desenhavam a república que pretendiam criar em Minas. Discutiram até a bandeira. Tiradentes queria três triângulos, pela Santíssima Trindade. Cláudio Manuel da Costa, segundo Alvarenga Peixoto, sugeriu “um gênio da América, quebrando as cadeias”, que dizia ter visto numa bandeira americana. Alvarenga, coronel e poeta, lembrou-se do verso de Virgílio, e todos acharam muito bonito.
Depois de preso, Alvarenga diria que aquilo era só conversa. A república não saiu do papel, e a bandeira também não.
Uma ironia que pesa
O verso tem uma ironia que os conjurados não comentaram. Títiro festeja a alforria, e os homens que queriam o verso na bandeira eram, quase todos, donos de gente escravizada, nas casas e nas lavras. A libertação de escravizados até entrou na conversa, mas como arma de guerra e só para os nascidos no Brasil, e não foi adiante. Os detalhes estão em Os inconfidentes queriam acabar com a escravidão?.
Onde o lema está hoje
O lema sobreviveu ao fracasso da Inconfidência Mineira. Quando Minas Gerais adotou a sua bandeira, em 1963, escolheu um fundo branco, um triângulo vermelho e, em volta dele, as palavras de Virgílio. O triângulo também está na moeda de cinco centavos, ao lado do rosto de Tiradentes. A bandeira nacional também tem um lema, “Ordem e Progresso”, mas de origem bem diferente: veio do positivismo e entrou na bandeira com a República de 1889, a mesma que transformou o alferes em herói. Um verso de pastor romano, cortado ao meio por um poeta inconfidente, acabou virando a frase mais conhecida da conspiração.
Fontes
- Virgílio, Bucólicas, Écloga I, versos 27–28
- Autos de Devassa da Inconfidência Mineira: inquirição de Alvarenga Peixoto
- Sentença da Alçada, 18 de abril de 1792
- Kenneth Maxwell, A devassa da devassa: a Inconfidência Mineira, Brasil e Portugal, 1750–1808 (1977)