A resposta curta
Hoje, nêmesis é o arqui-inimigo, o rival imbatível ou aquilo que acaba derrubando alguém. A palavra vem do grego: Nêmesis era a deusa da vingança, que cobrava o preço do orgulho e da sorte imerecida. Nas Metamorfoses de Ovídio, ela ouve a prece de um rejeitado e condena Narciso a amar o que não pode ter.
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A deusa que atende à prece
No livro 3 das Metamorfoses, Narciso já recusou todas as ninfas e todos os rapazes que se apaixonaram por ele. Um dia, um dos desprezados ergue as mãos para o céu e pede um castigo sob medida: “Se ele amar, que lhe seja negado o que ama!” Ovídio conta que Nêmesis ouviu e consentiu.
No latim, Ovídio a chama de Rhamnusia, a senhora de Ramnunte, por causa do grande templo dela nessa cidade do litoral da Ática, e diz que a prece era justa. O que vem depois é obra dela. O rapaz que não amava ninguém se apaixona pelo único rosto que nunca vai poder abraçar, o próprio reflexo, como conta a página sobre a origem da palavra narcisismo.
Uma filha da Noite
Nêmesis é muito mais antiga que Ovídio. A Teogonia de Hesíodo, composta por volta de 700 a.C., a coloca entre os filhos da Noite, ao lado da Desgraça, da Morte, da Censura e das Moiras:
E a Noite funesta deu à luz Nêmesis, para afligir os homens mortais
Em Os trabalhos e os dias, a profecia mais sombria de Hesíodo termina quando Aidós e Nêmesis, a vergonha e a justa indignação, abandonam a terra para viver entre os deuses. Sem elas, nada mais impede os homens de fazer o mal (versos 197–201). No poema perdido Cantos Cíprios, ela chega a ser a mãe de Helena de Troia.
O nome vem do verbo grego nemein, repartir, dar a cada um o que lhe cabe. Nêmesis não era uma vingança qualquer, e sim a resposta ao excesso: a arrogância, a crueldade, a sorte que ninguém mereceu. Heródoto usa a palavra para o que caiu sobre Creso, o rico rei da Lídia, depois que ele se declarou o mais feliz dos homens: uma grande nêmesis vinda do deus (Histórias 1.34). Pausânias conta outra história ligada ao templo. Os persas que desembarcaram em Maratona, em 490 a.C., trouxeram um bloco de mármore para erguer um monumento à vitória; depois da derrota, Fídias esculpiu nele uma estátua de Nêmesis para Ramnunte (Descrição da Grécia 1.33.2–3).
Nêmesis ou inimigo?
Em português, a palavra chegou como nome da deusa e da punição merecida, e aos poucos ganhou o sentido de hoje. Nêmesis é o adversário específico de alguém: o rival que sempre volta e nunca é vencido, ou aquilo que acaba provocando a queda. Sherlock Holmes tem Moriarty; o Batman tem o Coringa; um tenista tem aquele outro que sempre o elimina. Nas páginas de esporte, a palavra divide espaço com algoz, que diz quase a mesma coisa.
Inimigo pode ser qualquer um que esteja contra você. Nêmesis é pessoal, duradoura e, no sentido antigo, merecida. Algo da deusa continua grudado na palavra: encontrar a sua nêmesis é encontrar uma derrota que, de algum modo, já estava à sua espera. Até os astrônomos usaram o nome, em 1984, para uma hipotética estrela companheira do Sol, que seria a culpada por extinções em massa periódicas na Terra; essa estrela nunca foi encontrada.
A nêmesis de Narciso nem era um rival. Era o próprio rosto, enviado por uma deusa que dá aos orgulhosos exatamente o que o orgulho deles pediu. O rei Midas, que teve o desejo atendido ao pé da letra, provou de uma justiça parecida no toque de ouro.
Fontes
- Ovídio, Metamorfoses 3.402–406
- Hesíodo, Teogonia 211–225, e Os trabalhos e os dias 197–201
- Heródoto, Histórias 1.34
- Pausânias, Descrição da Grécia 1.33.2–3