A resposta curta
Significa “o que segura o calcanhar”. Gênesis 25:26 conta que o segundo gêmeo nasceu agarrado ao calcanhar de Esaú, e por isso se chamou Jacó, Ya’aqov em hebraico, de ’aqev, calcanhar. A raiz também dá um verbo para passar a perna, e Esaú ouviu “trapaceiro” no nome. Para muitos estudiosos, o sentido original era “que Deus proteja”.
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Agarrado ao calcanhar
Gênesis dá nome aos gêmeos na hora do parto. O primeiro sai vermelho e peludo e recebe o nome de Esaú. O segundo vem logo atrás, sem largar o irmão.
Depois disso, saiu o seu irmão, e a sua mão segurava o calcanhar de Esaú. Ele foi chamado de Jacó.
Em hebraico o nome é Ya’aqov, e a raiz é ’aqev, calcanhar. O sentido mais simples é “ele segura o calcanhar”. Gênesis gosta de nomes que funcionam como legenda: Esaú ganha um segundo nome, Edom, “vermelho”, por causa do ensopado que devora (25:30). Séculos depois, o profeta Oseias ainda resumia o parto em meia linha:
No ventre ele pegou seu irmão pelo calcanhar
Do calcanhar à rasteira
É pelo pé que se derruba alguém. Da mesma raiz o hebraico tira um verbo que quer dizer chegar por trás, dar uma rasteira, levar vantagem. O português tem uma imagem parecida: quem engana o outro “passa a perna” nele. E o verbo que a BPM põe na boca de Esaú, suplantar, vem do latim supplantare, derrubar alguém pela planta do pé. Quando perde também a bênção, Esaú faz do nome uma acusação: “Não é com razão que ele se chama Jacó?” (Gênesis 27:36).
O profeta Jeremias usa o mesmo jogo de palavras para descrever uma cidade onde ninguém confia em ninguém. No hebraico, o verbo dessa frase se escreve igualzinho ao nome Jacó.
e não confie em nenhum irmão; pois cada irmão certamente enganará
A BPM traduz por “enganará”, e com razão. A mesma raiz aparece em Jeremias 17:9, “o coração é enganoso mais do que todas as coisas”: a palavra hebraica para enganoso é ’aqov. Então Jacó quer dizer enganador? Ao pé da letra, não. O sentido primeiro é o calcanhar. A trapaça é o que Esaú, e depois Jeremias, ouviram no nome.
O sentido mais antigo
Muitos estudiosos pensam que Ya’aqov é a forma curta de um nome maior, Ya’aqov-El, em que quem age é Deus, El. Nomes desse tipo aparecem na região no segundo milênio a.C. Nesse uso antigo, o verbo quer dizer seguir de perto, como quem guarda as costas de alguém, e o nome vira uma pequena oração: “que Deus proteja”.
A história não para na trapaça. No vau do Jaboque ele recebe o nome de Israel (o que esse nome significa), mas a Bíblia nunca abandona o antigo. Deus se apresenta a Moisés como “o Deus de Abraão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó” (Êxodo 3:6), e um salmo canta: “O Deus de Jacó é o nosso refúgio” (Salmos 46:7). O nome do menino que segurava o calcanhar acaba no título do próprio Deus.
Tiago, Jaime e Iago
Pouca gente percebe, mas Jacó está por trás de nomes bem comuns no Brasil.
- Tiago. Em latim, Jacó virou Iacobus e, na Península Ibérica, Iago. São Tiago era “Sant’Iago”, daí Santiago de Compostela. Quando o povo separou “San” de “Tiago”, nasceu o nome que se usa até hoje.
- Jaime. Vem de Iacomus, outra forma latina do mesmo nome, que também deu o inglês James.
- Iago. A forma antiga ibérica, a mesma do vilão de Shakespeare em Otelo.
- Os apóstolos. Os dois apóstolos chamados Tiago e Tiago, irmão de Jesus têm, no grego do Novo Testamento, o nome do patriarca: Iakobos.
- Hebraico e árabe. Em hebraico moderno se diz Yaakov. No Alcorão, o patriarca é Ya’qub.
Fontes
- Gênesis 25:24–34; 27:35–36; 32:27–28
- Oseias 12:3; Jeremias 9:4; 17:9
- Êxodo 3:6; Salmos 46:7
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.