A resposta curta
É uma profecia ligada a Canudos. Entre os papéis do arraial, Euclides da Cunha anotou: “o certão virará praia e a praia virará certão”. A forma “o sertão vai virar mar” é a do filme Deus e o Diabo na Terra do Sol, de 1964. E, no fim dos anos 1960, um açude cobriu de fato a velha Canudos.
Revisado em
O que estava escrito
Belo Monte, o arraial de Antônio Conselheiro no sertão da Bahia, foi arrasado pelo exército em 5 de outubro de 1897. Entre os papéis achados ali, havia profecias. Euclides da Cunha copiou uma delas em Os Sertões (1902), com o “certão” escrito com c, do jeito que encontrou:
o certão virará praia e a praia virará certão
O sentido literal é uma troca de lugares: a terra seca do interior viraria praia, e a costa viraria sertão. Para gente que vivia da caatinga, sem chuva e sem terra, é fácil entender a força da imagem: o mundo de cabeça para baixo, a seca no litoral e a água no sertão.
Euclides leu essas profecias com o olhar que trazia desde 1897, quando falou em “fanatismo” antes de pisar no sertão. A vida diária de Belo Monte, com roça na beira do rio, armazém, comércio com as vilas vizinhas e até escola, mostra que ali havia muito mais do que a espera pelo fim do mundo.
O Conselheiro disse isso?
Nada garante que as palavras sejam dele. O que existe é um texto achado nos papéis do arraial, que Euclides copiou. E a forma que todo mundo repete, com “mar” no lugar de “praia”, não está nesse texto: é a que o cinema consagrou. Atribuir a ele a frase famosa é juntar a profecia, o cinema e a lenda numa coisa só. Quem foi esse homem está em Quem foi Antônio Conselheiro?.
Do papel para o cinema
Em 1964, Glauber Rocha lançou Deus e o Diabo na Terra do Sol, um dos filmes centrais do Cinema Novo, passado no sertão, com um vaqueiro, um beato e um cangaceiro. A canção do filme repete a profecia já com a palavra nova: o sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão. No fim, o vaqueiro corre pela caatinga, e a imagem corta para o mar. Foi essa versão, com “mar”, que ficou na memória do país.
Nos anos 1970, a canção Sobradinho, de Sá e Guarabyra, levou a mesma imagem para outra represa, a de Sobradinho, no rio São Francisco, que também cobriu cidades inteiras.
O dia em que o sertão virou água
A profecia ganhou um eco que ninguém em Belo Monte poderia imaginar. Os sobreviventes reconstruíram um povoado sobre as ruínas. No fim dos anos 1960, o açude de Cocorobó encheu e cobriu a velha Canudos. Não virou mar, virou açude. Nas secas, quando a água baixa, as ruínas do arraial reaparecem. Desde 1986, o Parque Estadual de Canudos guarda o campo de batalha.
A guerra que deixou essas ruínas está em O que foi a Guerra de Canudos?.
Fontes
- Euclides da Cunha, Os Sertões (Rio de Janeiro: Laemmert, 1902)
- Glauber Rocha, Deus e o Diabo na Terra do Sol (filme, 1964)
- Museu da República, cronologia de Canudos (2017)
- Sá e Guarabyra, Sobradinho (canção, anos 1970)