História do Brasil · Expressões

O que significa “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”?

A resposta curta

É a frase de Euclides da Cunha que abre o capítulo III de “O Homem”, a segunda parte de Os Sertões (1902). Elogia a resistência do morador do sertão, que Euclides viu lutar em Canudos. Mas a frase seguinte o compara aos “mestiços neurastênicos do litoral”, dentro da ciência racial da época, que hoje está abandonada.

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Onde está a frase

Os Sertões, o livro de Euclides da Cunha sobre a Guerra de Canudos, saiu em 2 de dezembro de 1902. A segunda parte, “O Homem”, tenta explicar quem vivia no sertão da Bahia. O capítulo III começa assim:

O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos do litoral.

Euclides da Cunha, Os Sertões (1902), parte II, “O Homem”, cap. III

A primeira frase virou provérbio. A segunda quase ninguém cita. E sertanejo, aqui, é o homem do sertão, o vaqueiro, o meeiro, o morador da caatinga, e não o gênero musical que o Brasil conhece hoje.

O que Euclides viu

Euclides tinha visto aqueles homens de perto. Chegou a Canudos em setembro de 1897 como repórter de O Estado de S. Paulo, ainda convencido de que o arraial era um foco monarquista, e ficou 18 dias na frente de batalha. Viu um povo magro, mal armado e faminto, que segurava havia meses o exército da República, com canhões e cerca de 10 mil soldados. A frase é o espanto de quem chegou esperando uma revolta manipulada e encontrou uma resistência que não cedia.

Logo adiante, no mesmo capítulo, ele avisa que à primeira vista o sertanejo parece o contrário: “desgracioso, desengonçado, torto”, um “Hércules-Quasímodo”. A força não está na figura. Está no fôlego que aparece quando é preciso: o homem que parecia cansado se transforma diante do perigo ou de um boi que escapa da boiada.

A “ciência” de 1902

O elogio vem dentro de uma teoria. Euclides escrevia com a ciência racial do tempo dele, que classificava os povos em raças superiores e inferiores e via na mistura um risco. A mesma régua aparece no resto do livro: as “sub-raças”, o Conselheiro descrito como doente, a previsão de que o sertanejo ia desaparecer. Na leitura de Euclides, séculos de isolamento no interior tinham formado no sertão um tipo mais firme do que os mestiços da costa. Por isso o elogio a um vem colado ao desprezo pelo outro.

Essas teorias foram abandonadas. A biologia do século XX desmontou a ideia de raças humanas superiores e inferiores, e a mistura não enfraquece ninguém. Ler a frase inteira é ver o livro com o olhar de 1902, o mesmo de boa parte da elite letrada do país.

Por que a frase sobreviveu sozinha

Hoje a primeira metade circula sem a segunda, como elogio ao povo do sertão, e muita gente a repete com orgulho. Não é à toa: ela fala de resistência à seca, à fome e à guerra, e nasceu da admiração por gente que a imprensa de 1897 chamava de “fanáticos”. Mas quem conhece o resto sabe que ela vem de um livro que denunciou o massacre de Canudos como crime e, ao mesmo tempo, mediu as pessoas por raça.

As duas coisas convivem no mesmo autor. Para entender o livro inteiro, com a denúncia e as teorias, veja Sobre o que é o livro Os Sertões?. Para a guerra que ele conta, O que foi a Guerra de Canudos?.

Fontes

  • Euclides da Cunha, Os Sertões (Rio de Janeiro: Laemmert, 1902), parte II, “O Homem”, capítulo III
  • Roberto Ventura, Retrato interrompido da vida de Euclides da Cunha (2003)
  • Museu da República, cronologia de Canudos (2017)