História do Brasil · Textos

Sobre o que é o livro Os Sertões?

A resposta curta

É o livro de Euclides da Cunha sobre a Guerra de Canudos, publicado em 2 de dezembro de 1902. Euclides cobriu a guerra como repórter e dividiu o livro em três partes: a terra do sertão, o homem que vive nela e a luta. O livro chama a campanha de crime, mas também carrega a ciência racial da época.

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Do repórter ao livro

Euclides da Cunha era engenheiro, ex-tenente e republicano de primeira hora. Em 1897, foi a Canudos como repórter de O Estado de S. Paulo e fechava as reportagens com uma frase de fé política: “A República é imortal”. Ficou 18 dias no front, de 16 de setembro a 3 de outubro, e saiu doente, dois dias antes da queda do arraial. Escreveu o fim da guerra com anotações, jornais e relatos de oficiais.

Depois, passou três anos em São José do Rio Pardo, no interior de São Paulo, reconstruindo uma ponte. Nas horas livres, escrevia numa cabana de zinco. Pagou metade da edição do próprio bolso. Os Sertões saiu pela editora Laemmert, no Rio, em 2 de dezembro de 1902, com 637 páginas. Dos 2.000 exemplares, mais da metade se vendeu em oito dias. Antes do lançamento, segundo o biógrafo Roberto Ventura, Euclides corrigiu à mão, com a ponta de um canivete, cerca de 80 erros em cada exemplar. No ano seguinte, entrou para a Academia Brasileira de Letras.

Terra, homem, luta

O livro tem três partes, e só a última conta a guerra:

  1. A Terra. O sertão como paisagem: o clima, a caatinga, as secas.
  2. O Homem. Quem vive ali e de onde veio, e a trajetória do Conselheiro. É nessa parte que está “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”.
  3. A Luta. As quatro expedições, o cerco e a queda de Belo Monte.

Por isso ele não cabe numa estante só. Não é romance: os fatos e as pessoas são reais. Também não é só reportagem: mistura geografia, geologia, história e as teorias sociais da época, numa prosa cheia de palavras raras que assusta até hoje quem pega o livro no vestibular. Costuma ser lido como ensaio e como um dos livros mais importantes da literatura brasileira. Em inglês, saiu com o título Rebellion in the Backlands.

O que o livro denuncia

Euclides chegou chamando Canudos de “nossa Vendéia”, uma revolta monarquista. Saiu convencido de outra coisa. Na nota que abre o livro, escreveu:

Aquela campanha lembra um refluxo para o passado. E foi, na significação integral da palavra, um crime. Denunciemo-lo.

Euclides da Cunha, Os Sertões (1902), nota preliminar

O livro conta a degola dos prisioneiros e diz que ela virou rotina, aceita pelos chefes. E, quase no fim, escreve uma das frases mais citadas do livro: “Canudos não se rendeu”.

Os Sertões é racista?

O livro não é neutro, e a pergunta é justa. Junto com a denúncia, Os Sertões carrega a “ciência” racial de 1902: fala em sub-raças, trata o Conselheiro como um doente e prevê que os sertanejos vão desaparecer. Essas teorias, comuns na elite letrada daquele tempo, foram abandonadas. Elogio e preconceito convivem no mesmo livro, às vezes na mesma frase.

Por isso a história de Canudos não termina em Euclides. Nas décadas seguintes, historiadores como José Calasans foram ao sertão ouvir os sobreviventes, e Walnice Nogueira Galvão reuniu o que os jornais diziam no calor da guerra. A leitura mais honesta de Os Sertões guarda as duas coisas: um grande livro, com o olhar de 1902. A guerra que ele conta está em O que foi a Guerra de Canudos?.

Fontes

  • Euclides da Cunha, Os Sertões (Rio de Janeiro: Laemmert, 1902), nota preliminar e partes I a III
  • Euclides da Cunha, “A nossa Vendéia”, O Estado de S. Paulo, 14 de março de 1897
  • Roberto Ventura, Retrato interrompido da vida de Euclides da Cunha (2003)
  • Walnice Nogueira Galvão, No calor da hora: a Guerra de Canudos nos jornais (1974)
  • Museu da República, cronologia de Canudos (2017)