História do Brasil · Pessoas

Quem foi Antônio Conselheiro?

A resposta curta

Foi Antônio Vicente Mendes Maciel, nascido em Quixeramobim, no Ceará, em 13 de março de 1830. Filho de comerciante, virou nos anos 1870 um beato andarilho de túnica azul. Não era padre: rezava, dava conselhos e reconstruía igrejas, cemitérios e açudes com os pobres. Em 1893 fundou Belo Monte, o arraial de Canudos, e morreu ali em 1897.

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Antes da túnica

Antônio Vicente Mendes Maciel nasceu em Quixeramobim, no sertão do Ceará, em 13 de março de 1830, filho de comerciante. A casa onde nasceu ainda está de pé, tombada. Ele tentou de tudo: foi caixeiro, professor, escrivão, e não se firmou em nada. Em 1861, a mulher o deixou. Nos anos seguintes, começou a andar pelo sertão, rezando. Guarde a geografia: nasceu no Ceará e morreu na Bahia, depois de mais de vinte anos de estrada.

Por que Conselheiro

Nos anos 1870, ele aparecia nos sertões de Sergipe e da Bahia vestido com um camisolão azul, de sandálias, a barba até a cintura. Dormia numa tábua, vivia de esmola e recusava tudo o que passasse do necessário. Não era padre e não dava sacramentos. Pregava e aconselhava, e o povo passou a chamá-lo de Conselheiro. Em 1876, um anuário do Rio já falava dele:

Apareceu no sertão do norte um indivíduo, que se diz chamar Antônio Conselheiro, e que exerce grande influência no espírito das classes populares servindo-se de seu exterior misterioso e costumes ascéticos, com que impõe à ignorância e à simplicidade.

Anuário publicado no Rio de Janeiro, 1876, citado por Euclides da Cunha em Os Sertões (1902)

É a cidade olhando para o sertão: um homem esquisito que impressiona os ignorantes. Quem andava atrás dele via outra coisa.

O crime que não existiu

No mesmo ano, a polícia o prendeu na vila de Itapicuru, na Bahia. Diziam que ele tinha matado a mãe e a esposa. Era mentira. A escolta o espancou pelo caminho até o Ceará, e ele não reclamou. Lá, a acusação caiu. Solto, voltou à Bahia ainda em 1876, e a fama dele triplicou. Ainda hoje há quem pergunte se ele matou a mãe. Não matou: a própria Justiça derrubou a acusação naquele ano.

O construtor do sertão

Então veio a Grande Seca, de 1877 a 1879, que matou entre cem mil e meio milhão de pessoas no Nordeste. O Conselheiro respondeu com trabalho. Juntava os pobres para reconstruir muros de cemitério, levantar capelas e abrir açudes. Em Chorrochó, na Bahia, chegou em 1877 e ergueu uma igreja que ficou pronta em 1885, como registra a placa do templo. Ninguém recebia salário: havia comida, reza e um lugar no mundo. Ele não ficava com nada.

Num sertão de poucos donos, padres raros e, depois de 13 de maio de 1888, libertos sem terra nem escola, ele virou guia e padrinho de muitas crianças. A Igreja se incomodou. Em 1882, o arcebispo da Bahia o proibiu de pregar nos templos e, em 1887, pediu ao governo que o detivesse. O cortejo só crescia: beatas, vaqueiros, libertos, indígenas e valentões armados.

Belo Monte e o fim

Quando a República separou a Igreja do Estado, ele passou a pregar contra o governo novo, por fé e não por partido, como mostra Canudos era monarquista?. Em junho de 1893, fundou Belo Monte numa curva do rio Vaza-Barris, e o arraial cresceu até 5.200 casas. Deixou dois cadernos manuscritos de pregações, um de 1895 e outro de 1897. Não existe fotografia dele vivo: os jornais de 1897 o desenharam de ouvir falar.

Morreu dentro do arraial cercado, em 22 de setembro de 1897, duas semanas antes da queda. Os detalhes, e o mito de que soldados o mataram, estão em Como Antônio Conselheiro morreu?.

Fontes

  • Anuário publicado no Rio de Janeiro (1876), citado em Euclides da Cunha, Os Sertões (1902), parte II, “O Homem”
  • Placa da igreja de Chorrochó, Bahia (1877 a 1885)
  • Museu da República, cronologia de Canudos (2017)
  • José Calasans, O ciclo folclórico do Bom Jesus Conselheiro (1950)
  • Walnice Nogueira Galvão, No calor da hora: a Guerra de Canudos nos jornais (1974)