A resposta curta
Mateus não explica. Desde o século II, escritores cristãos leem os presentes como um retrato do menino: ouro para um rei, incenso para Deus, mirra para um homem que iria morrer. No mundo deles, eram simplesmente os presentes mais caros que havia: ouro e duas resinas perfumadas de árvores, trazidas de camelo do sul da Arábia.
Revisado em
O que Mateus diz, e o que não diz
Os presentes ocupam meio versículo. Os magos encontram o menino numa casa em Belém, prostram-se, abrem os seus tesouros e oferecem “ouro, incenso e mirra” (Mateus 2:11). Mateus não explica nada. Mas os primeiros leitores ouviriam ali um eco da visão de Isaías, com as nações chegando a Jerusalém e as caravanas de Sabá na frente. Quem eram os magos é outra história.
Uma multidão de camelos cobrirá você, os dromedários de Midiã e Efa. Todos os de Sabá virão. Eles trarão ouro e incenso, e proclamarão os louvores do SENHOR.
O incenso, a resina branca
O incenso dos magos é o olíbano, a seiva seca das árvores do gênero Boswellia, pequenas e resistentes, que crescem em encostas secas do sul da Arábia, nos atuais Omã e Iêmen, e do outro lado do mar, na Somália e na Etiópia. Os coletores cortam a casca, e uma resina leitosa escorre e endurece em grãos claros, chamados lágrimas. Queimada, solta uma fumaça doce. Em hebraico se chama levonah, “a branca”. No Templo, entrava no incenso sagrado (Êxodo 30:34) e era posta sobre as ofertas de cereais (Levítico 2:1). As igrejas que usam turíbulo ainda queimam olíbano.
A mirra, o perfume amargo
A mirra é a resina da Commiphora, um arbusto espinhento das mesmas regiões. O nome hebraico, mor, lembra a palavra para amargo. Era perfume, remédio e especiaria de sepultamento ao mesmo tempo. O óleo de mirra entrava no óleo santo da unção (Êxodo 30:23), e as moças levadas ao rei Assuero, Ester entre elas, passavam seis meses tratadas com ele (Ester 2:12). Os embalsamadores egípcios enchiam os corpos de mirra, diz Heródoto (Histórias 2.86). Nos Evangelhos, ela volta duas vezes, ambas na morte de Jesus: os soldados lhe oferecem vinho misturado com mirra na cruz, e ele recusa (Marcos 15:23), e um membro do conselho a leva para o sepultamento.
Nicodemos, que no princípio tinha ido a Jesus de noite, também veio trazendo uma mistura de mirra e aloés, cerca de cem libras romanas.
Presentes de rei
As duas resinas subiam pela Rota do Incenso, uma corrente de caravanas e oásis do sul da Arábia até Gaza e o Mediterrâneo. Plínio, o Velho, escrevendo nos anos 70 d.C., conta 65 paradas de camelo entre a terra do olíbano e Gaza, com pedágios e taxas que chegavam a 688 denários por camelo antes de a carga alcançar a costa (História Natural 12.63–65). Ele reclama que Nero queimou num só dia, no funeral da mulher, Popeia, mais incenso do que a Arábia produz num ano (12.83). Eram os artigos de luxo da época, o tipo de presente que um rei mandava a outro.
Os significados tradicionais
Os escritores cristãos logo deram um sentido a cada presente, e a leitura clássica quase não mudou:
- Ouro, para um rei. Por volta de 180 d.C., Ireneu escreveu que o ouro foi oferecido porque o menino era um rei cujo reino não tem fim (Contra as Heresias 3.9.2).
- Incenso, para Deus. O incenso era queimado no culto, e por isso o presente foi lido como adoração ao menino como Deus.
- Mirra, para uma morte. Especiaria de sepultamento, apontava para um homem que iria morrer e ser sepultado. Orígenes dá os mesmos três sentidos no século III (Contra Celso 1.60).
Num sermão da Epifania, o papa Gregório Magno acrescentou uma leitura para quem reza: o ouro é a sabedoria, o incenso é a oração, a mirra é a renúncia (Homilias sobre os Evangelhos 10). No Brasil, os presentes seguem vivos na Folia de Reis, os grupos de cantadores que percorrem as casas entre o Natal e o 6 de janeiro, Dia de Reis, levando a bandeira dos três reis magos.
Fontes
- Mateus 2:11; Isaías 60:6; Salmos 72:10–15
- Êxodo 30:23, 34; Levítico 2:1; Ester 2:12; Marcos 15:23; João 19:39–40
- Plínio, o Velho, História Natural 12.51–71, 12.83; Heródoto, Histórias 2.86
- Ireneu, Contra as Heresias 3.9.2; Orígenes, Contra Celso 1.60; Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos 10
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.