A Bíblia · Mitos

Os animais entraram na arca de dois em dois?

A resposta curta

Em parte. Gênesis 6:19–20 manda Noé levar dois de cada espécie, macho e fêmea. Mas em Gênesis 7:2–3 Deus pede sete casais de cada animal puro e das aves, e dois dos impuros. Os extras fazem diferença depois: o primeiro gesto de Noé ao sair da arca é um sacrifício de animais e aves puros.

Revisado em

Dois de cada espécie

A ordem que todo mundo lembra vem primeiro, quando a arca ainda é um projeto.

De todo ser vivo de toda a carne, você trará dois de cada espécie para dentro da arca, para conservá-los vivos com você. Eles serão macho e fêmea.

Gênesis 6:19

O versículo seguinte percorre os grupos, aves, gado e répteis, cada um “segundo a sua espécie”, e repete o objetivo: conservá-los vivos. Um casal é o mínimo para recomeçar. Quando chega o dia, o narrador diz que os animais entraram “em pares” (7:9) e “aos pares” (7:15). Daí o “dois a dois” das histórias infantis e dos desenhos que todo mundo viu.

Depois vêm os sete

Um capítulo adiante, quando Deus manda Noé embarcar, a conta muda.

Leve com você sete casais de cada espécie de animal puro, o macho e sua fêmea. Dos animais que não são puros, leve dois, o macho e sua fêmea. Também das aves do céu, leve sete pares, macho e fêmea, para manter viva a semente sobre a face de toda a terra.

Gênesis 7:2–3

O hebraico diz shiv’ah shiv’ah, literalmente “sete sete”. Os tradutores leem de dois jeitos. A maioria das Bíblias de hoje, como a Bíblia Portuguesa Mundial, entende sete casais, catorze animais. Outros leitores entendem sete animais: três casais e um de sobra.

Por que mais animais puros?

Na lei dada depois, animais puros são os que Israel pode comer e oferecer, os de casco fendido que ruminam, como bois, ovelhas e cabras (Levítico 11:3). O Gênesis não explica como Noé sabia distinguir puro de impuro séculos antes do Sinai. Rashi, o comentarista judeu medieval, respondeu que Noé tinha estudado a Torá de antemão. O motivo dos sete aparece assim que a água vai embora.

Noé construiu um altar ao SENHOR, e tomou de todo animal puro e de toda ave pura, e ofereceu holocaustos no altar.

Gênesis 8:20

Com um único casal de cada, essa oferta teria extinguido a própria espécie oferecida. Os sete tornam o altar possível. Poucos versículos depois, Deus libera a carne pela primeira vez: “Tudo o que se move e tem vida será alimento para vocês” (9:3).

Duas vozes ou uma história só?

A conta dupla chamou a atenção dos leitores há muito tempo. A maioria dos estudiosos modernos acha que o Gênesis trança dois relatos mais antigos do Dilúvio. Num deles, chamado de fonte sacerdotal, Deus é Elohim, os animais vêm em pares e ninguém oferece sacrifício, porque nessa fonte o culto só começa com Arão, no Sinai. No outro, chamado de javista, Deus é chamado pelo nome, Javé, os animais puros vêm de sete em sete e Noé constrói um altar. Os leitores tradicionais, judeus e cristãos, ouvem uma história só: a regra geral no capítulo 6 e o detalhe no capítulo 7, como um construtor que dá a planta antes das medidas.

O que não foi na arca

O Gênesis cita aves, gado e répteis. Nunca fala de peixes, e é claro sobre quem morreu: “tudo o que estava em terra seca, em cujas narinas havia o fôlego do espírito de vida” (7:22). Também não dá um total. A palavra hebraica para os grupos, min, “espécie”, não é a espécie da biologia, então toda contagem dos bichos da arca é palpite. O Alcorão fica com a regra simples e manda Noé embarcar um casal de cada espécie (11:40). Para o tamanho do barco que levou todos eles, veja qual era o tamanho da arca de Noé.

Fontes

  • Gênesis 6:9–22; 7:1–16; 7:21–23; 8:18–9:3
  • Levítico 11:1–8
  • Rashi sobre Gênesis 7:2
  • Alcorão 11:40

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.