A resposta curta
Muitas, e na mesma ordem: um deus avisa um homem do dilúvio que vem aí, ele constrói um barco enorme e vedado, embarca a família e os animais, pousa numa montanha, solta aves e oferece um sacrifício cujo cheiro chega ao céu. As diferenças são igualmente fundas: um Deus ou muitos deuses, uma aliança ou a imortalidade.
Revisado em
Um dilúvio escrito em barro
Em 1872, George Smith, um gravador autodidata que trabalhava no Museu Britânico, examinava tábuas de barro quebradas vindas de Nínive, no atual Iraque. Numa delas, leu sobre um barco que pousou numa montanha e uma pomba solta para procurar terra. Era a décima primeira tábua da Epopeia de Gilgamesh, copiada para a biblioteca do rei assírio Assurbanípal no século VII a.C. Nela, um velho chamado Utnapishtim conta a Gilgamesh como sobreviveu ao dilúvio e ganhou a imortalidade.
A história é mais velha que essa cópia. Um poema babilônico anterior, Atrahasis, conta o mesmo dilúvio em tábuas do século XVII a.C., e uma versão suméria chama o herói de Ziusudra. Todas essas cópias são mais antigas que qualquer manuscrito do Gênesis que chegou até nós; os mais antigos, entre os Manuscritos do Mar Morto, são séculos mais novos que a tábua de Nínive. Quando o Gênesis foi escrito é algo que se discute.
Ponto por ponto
- O aviso. O deus Ea, que jurou segredo, sussurra o plano pela parede de junco da cabana de Utnapishtim: derrube a casa, construa um barco. No Gênesis, Deus fala diretamente com Noé, dá o projeto e promete uma aliança (Gênesis 6:13–18).
- O motivo. A tábua XI não dá nenhum; Atrahasis culpa o barulho dos humanos, que não deixa o deus Enlil dormir. O Gênesis diz que “a terra estava cheia de violência”, e Deus se entristece (Gênesis 6:6, 11).
- O barco. Utnapishtim faz um cubo de 120 côvados por lado, com sete níveis, vedado com betume. A arca de Noé é uma caixa comprida, de 300 por 50 por 30 côvados, revestida de piche (o tamanho da arca).
- Quem embarca. Utnapishtim leva ouro e prata, os parentes, artesãos e animais, e entrega o barco a um barqueiro. Noé leva oito pessoas e os animais, e é o próprio Deus quem fecha a porta (Gênesis 7:16).
- A tempestade. Em Gilgamesh, os próprios deuses se encolhem como cães contra a muralha do céu, e o temporal dura seis dias. No Gênesis, a chuva cai quarenta dias, e as águas dominam por 150.
- O pouso. O barco de Utnapishtim encalha no monte Nimush. A arca repousa “sobre os montes de Ararate” (Gênesis 8:4).
- As aves. Utnapishtim solta uma pomba e uma andorinha, que voltam, e depois um corvo, que não volta. Noé solta um corvo e depois a pomba três vezes, até que ela não volte mais (Gênesis 8:7–12).
- O sacrifício. Os deuses sentem o cheiro da oferta e se juntam como moscas em volta dela. No Gênesis, “o SENHOR sentiu o aroma agradável” (Gênesis 8:21).
- O sinal. A deusa-mãe ergue o seu colar de lápis-lazúli e jura nunca esquecer aqueles dias. Deus põe o seu arco nas nuvens (Gênesis 9:13).
- O fim. Utnapishtim e a mulher se tornam como deuses e vão morar longe, na foz dos rios. Noé planta uma vinha, se embriaga e morre aos 950 anos (Gênesis 9:20–29).
O Gênesis copiou Gilgamesh?
A semelhança é grande demais para ser acaso, e quase todos os historiadores acham que as duas histórias estão ligadas. O dilúvio mesopotâmico viajou longe: um trecho da epopeia apareceu até em Ugarit, no litoral da Síria, numa tábua de cerca de 1200 a.C. A maioria dos estudiosos pensa que o Gênesis conhecia essa tradição e a recontou com um só Deus, um motivo moral e uma promessa a todo ser vivo. Muitos leitores tradicionais veem o contrário: duas memórias de um mesmo dilúvio real, sendo o Gênesis a fiel. De todo modo, o Gênesis não é cópia. O seu Deus não se apavora com o próprio dilúvio, e termina a história se comprometendo:
Estabelecerei a minha aliança com vocês: Nunca mais toda a carne será exterminada pelas águas do dilúvio. Nunca mais haverá um dilúvio para destruir a terra.
Fontes
- Gênesis 6:5–9:29
- Epopeia de Gilgamesh, tábua XI (Museu Britânico, da biblioteca de Assurbanípal em Nínive)
- Atrahasis, tábuas I a III
- Andrew George, The Epic of Gilgamesh (Penguin Classics, 1999)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.