A resposta curta
Para marcar e vigiar o limite norte da Britânia romana. Adriano, que tinha parado de expandir o império, mandou construí-la por volta da sua visita em 122 d.C.; o biógrafo antigo dele diz que era para separar romanos e bárbaros. Soldados ergueram 80 milhas romanas, uns 117 km, de costa a costa, com portões e fortes para controlar quem passava.
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O que diz a única fonte antiga
Uma só frase antiga explica a Muralha. A biografia de Adriano na História Augusta, escrita uns dois séculos e meio depois, diz que ele foi à Britânia, corrigiu muita coisa e foi o primeiro a construir um muro de oitenta milhas para separar os bárbaros dos romanos (Adriano 11.2). É só isso. Todo o resto vem das pedras, das inscrições e dos próprios fortes.
O contexto explica o resto. Quando Adriano virou imperador, em 117, diz a mesma biografia, os bretões não se deixavam manter sob controle romano, os mouros atacavam e a Líbia e a Palestina se agitavam (Adriano 5.2). A resposta dele, no império inteiro, foi parar de conquistar. Devolveu as terras novas de Trajano além do Eufrates, a Mesopotâmia entre elas, porque não havia como mantê-las. Onde nenhum rio protegia a fronteira, ele a fechou com paliçadas de estacas enormes (Adriano 12.6). A Britânia ganhou a barreira mais ambiciosa de todas.
Roma já tinha ido mais longe
Quarenta anos antes, Roma tentara tomar a ilha inteira. O sogro de Tácito, Agrícola, marchou fundo na Caledônia, a atual Escócia, e venceu uma batalha no monte Graupius por volta de 83 d.C. Antes dela, Tácito põe na boca do chefe caledônio Calgaco um discurso contra Roma:
Ao roubo, à matança e à rapina dão o nome mentiroso de império; fazem um deserto e chamam isso de paz.
As palavras são do próprio Tácito, mas o problema era real. O extremo norte exigia mais soldados do que Roma queria gastar, e as legiões recuaram. Tácito reclamou depois que a Britânia foi conquistada e logo largada (Histórias 1.2). Adriano traçou a sua linha onde o domínio romano de fato se sustentava, no gargalo estreito de terra entre os rios Tyne e Solway.
Como a Muralha funcionava
Soldados de três legiões, talvez 15 mil homens, ergueram a maior parte em uns seis anos. O trecho leste era de pedra; o oeste foi feito primeiro de torrões de grama e depois refeito em pedra. A cada milha romana havia um fortim com portão, o castelo de milha, e entre cada par deles, duas torres. Mais tarde, dezesseis fortes maiores foram acrescentados ao longo da linha, e atrás dela corria um fosso largo entre barrancos de terra, o Vallum.
Esses portões são o ponto. Um muro com umas oitenta passagens não foi feito para fechar a Britânia. A maioria dos historiadores o vê como um filtro. Ele barrava os ataques, dificultava o contrabando e obrigava todo viajante, comerciante e rebanho a cruzar onde os soldados podiam vigiar e, muito provavelmente, cobrar uma taxa. Também avisava a todos, dos dois lados, que Roma tinha vindo para ficar.
Cartas encontradas em Vindolanda, um forte logo atrás da linha, mostram como a guarnição via os vizinhos, mesmo antes da Muralha. Escrita por volta de 100 d.C. numa fina tabuinha de madeira, uma delas chama os nativos de Brittunculi, “bretõezinhos”.
Não é a fronteira com a Escócia
A Muralha fica inteira na Inglaterra, de Wallsend, às margens do Tyne, hoje parte de Newcastle, até Bowness-on-Solway, a oeste de Carlisle. Em alguns trechos passa bem ao sul da fronteira escocesa atual, e nunca marcou essa fronteira: a Escócia ainda nem existia. O sucessor de Adriano, Antonino Pio, levou a fronteira para o norte por volta de 142 d.C. e ergueu um muro de terra e grama no centro da Escócia, a Muralha de Antonino. Ela foi abandonada em menos de uma geração, e em 164 o exército já tinha voltado à linha de Adriano, que continuou sendo a fronteira, com breves interrupções, até o fim do domínio romano na Britânia. A Muralha é Patrimônio Mundial da UNESCO desde 1987.
Fontes
- História Augusta, Vida de Adriano 5.2–3, 11.2 e 12.6
- Tácito, Agrícola 29–38; Histórias 1.2
- Tabuinhas de Vindolanda, Tab. Vindol. II 164
- David J. Breeze e Brian Dobson, Hadrian’s Wall (4ª ed., 2000)