A resposta curta
Porque Sara exigiu. Na festa do desmame de Isaque, ela viu Ismael “zombando”, ou brincando, e pediu a Abraão que expulsasse a escrava e o filho, para que Ismael não dividisse a herança com Isaque. Abraão sofreu com isso, mas Deus mandou que ouvisse Sara e prometeu fazer de Ismael também uma nação.
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Uma festa e uma risada
Isaque nasce quando Abraão tem cem anos, e no dia em que o menino é desmamado o pai dá um grande banquete. Então Sara vê uma coisa que Gênesis conta numa palavra só. A BPM chama a escrava de Hagar; a tradição em português consagrou Agar.
Sara viu o filho de Hagar, a egípcia, o qual ela tinha dado à luz a Abraão, zombando. Por isso ela disse a Abraão: “Expulse esta serva e o seu filho! Pois o filho desta serva não será herdeiro com o meu filho, Isaque.”
A palavra hebraica é metzaḥeq, da mesma raiz do nome de Isaque, Yitzḥaq, “ele ri”. Pode querer dizer zombar, brincar ou simplesmente rir, e ninguém sabe o tom. A Septuaginta, a tradução grega, acrescenta que ele brincava com Isaque. Os rabinos imaginaram coisa bem pior, e Rashi cita idolatria e violência entre as hipóteses. Paulo leu ali uma perseguição: o filho “que nasceu segundo a carne perseguia o que nasceu segundo o Espírito” (Gálatas 4:29). O motivo de Sara, esse sim, é dito com todas as letras: a herança.
A tristeza de Abraão
“Isso pareceu muito mau aos olhos de Abraão por causa de seu filho” (21:11). Ismael é o primogênito. Abraão tinha oitenta e seis anos quando ele nasceu e cem quando nasceu Isaque (16:16; 21:5), e as mães costumavam amamentar por dois ou três anos (2 Macabeus 7:27 fala em três). Ismael devia ter uns dezesseis anos no dia da festa. Deus resolve a questão: “Em tudo o que Sara disser a você, ouça a voz dela” (21:12). E faz uma promessa.
Eu também farei uma nação do filho da serva, porque ele é seu filho.
Agar já tinha passado por um deserto antes. Anos atrás, grávida e maltratada por Sarai, ela mesma fugiu, e um anjo a mandou de volta com a promessa de um filho chamado Ismael, “Deus ouve” (16:6–11).
Pão, água e um tiro de arco
Abraão se levanta de madrugada, põe pão e um odre de água no ombro de Agar, entrega o menino e a despede (21:14). Ela anda sem rumo pelo deserto de Berseba, no atual Neguebe. Quando a água acaba, deixa o menino debaixo de um arbusto e senta a um tiro de arco de distância. “Não me deixe ver a morte do menino”, diz, e chora (21:16).
Deus ouviu a voz do menino. O anjo de Deus chamou Hagar do céu, e lhe disse: “O que a aflige, Hagar? Não tenha medo. Pois Deus ouviu a voz do menino onde ele está.
O nome se cumpre: Deus ouve. Então “Deus abriu os olhos dela, e ela viu um poço de água” (21:19). Há muito tempo os leitores notam que este capítulo espelha o seguinte. Os dois começam com Abraão se levantando de madrugada. Nos dois um filho de Abraão está para morrer, um anjo chama do céu e alguém levanta os olhos e vê a saída: um poço para Agar, um carneiro para Abraão (22:3, 11–13).
O que aconteceu com os dois
- Em Gênesis. Ismael cresce no deserto de Parã e vira arqueiro, e a mãe lhe arranja uma esposa do Egito (21:20–21). Tem doze filhos, “doze príncipes, segundo as suas nações” (25:16), e Esaú mais tarde se casa com uma filha dele (28:9).
- No fim. Quando Abraão morre, Isaque e Ismael o sepultam juntos em Macpela (25:9). Ismael vive 137 anos (25:17).
- Em Paulo. A carta aos Gálatas faz das duas mães uma alegoria de duas alianças, a escravidão e a liberdade (4:21–31).
- No Islã. A tradição, não Gênesis, leva Hajar e Ismail ao vale de Meca e à fonte de Zamzam, e faz de Ismail um antepassado dos árabes (por que Abraão é chamado pai de três religiões).
Fontes
- Gênesis 16:1–16; 21:1–21; 22:1–14; 25:9–18; 28:9
- Gálatas 4:21–31; 2 Macabeus 7:27
- Septuaginta, Gênesis 21:9; Rashi sobre Gênesis 21:9
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.