A resposta curta
Porque continuou orando a Deus depois que o rei Dario proibiu, por trinta dias, qualquer pedido que não fosse a ele. Rivais armaram a cilada, e a lei dos medos e persas não podia ser mudada. Segundo Daniel 6, um anjo fechou a boca dos leões; Daniel saiu ileso, e os acusadores tomaram o seu lugar.
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Uma armadilha para um homem honesto
A Babilônia caiu diante da Pérsia em 539 a.C., e o novo governante do livro, Dario, o medo, organiza o reino com 120 governadores e três presidentes. Daniel, já com uns oitenta anos, é um dos três, e trabalha tão bem que o rei pensa em pô-lo acima de todos (Daniel 6:1–3). Os colegas saem atrás de algum podre e não acham nada.
Então estes homens disseram: “Não encontraremos nenhum motivo de acusação contra este Daniel, a menos que o encontremos contra ele na lei do seu Deus.”
Então bajulam o rei. Durante trinta dias, propõem, quem fizer um pedido “a qualquer deus ou homem” que não seja o rei vai para a cova dos leões. E pedem que ele assine “de acordo com a lei dos medos e dos persas, que não se altera” (6:7–8). O livro de Ester conhece a mesma regra: o documento selado com o anel do rei “não pode ser revogado por homem algum” (Ester 8:8). Dario assina e cai na própria armadilha.
O que Daniel fez
Daniel não se esconde nem protesta. Vai para casa e faz o que sempre fez.
Quando Daniel soube que o documento havia sido assinado, ele foi para sua casa (ora, as janelas do seu quarto estavam abertas em direção a Jerusalém) e ele se ajoelhou três vezes ao dia, e orou, e deu graças diante do seu Deus, como costumava fazer antes.
Os dois detalhes são antigos. Na dedicação do Templo, Salomão pediu que Deus ouvisse os exilados que orassem “voltados para a sua terra”, para “a cidade que escolheste” (1 Reis 8:48), e um salmo ora “à tarde, pela manhã e ao meio-dia” (Salmos 55:17). Os judeus até hoje rezam voltados para Jerusalém, três vezes por dia. Bastou aos inimigos vigiar a janela.
A noite na cova
O rei tenta salvá-lo até o pôr do sol, mas a lei dele mesmo não muda. Daniel é jogado na cova. Uma pedra fecha a boca do fosso, selada com o anel do rei. Dario passa a noite em jejum, sem música e sem sono. Ao amanhecer, corre até a cova e grita lá para baixo: “Daniel, servo do Deus vivo, será que o seu Deus, a quem você serve continuamente, pôde livrá-lo dos leões?” (6:20). A resposta sobe do escuro.
O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou a boca dos leões, e eles não me fizeram mal, porque inocência foi achada em mim diante dele; e também diante de você, ó rei, eu não fiz nenhum mal.
Como ele sobreviveu? O versículo dá duas razões: um anjo e a inocência. Não se achou nele nenhum ferimento, “porque ele havia confiado no seu Deus” (6:23). A Carta aos Hebreus inclui entre os heróis da fé os que “fecharam as bocas de leões” (Hebreus 11:33).
O que aconteceu com os acusadores
O final é duro. O rei manda jogar os acusadores na cova com as mulheres e os filhos, e os leões os atacam antes que cheguem ao fundo (6:24). Isso incomoda os leitores há séculos, porque a Lei de Moisés proíbe matar os filhos pelo crime dos pais (Deuteronômio 24:16). Mas a justiça ali é a do rei persa, e os reis persas castigavam famílias inteiras: Heródoto conta que Dario I executou o nobre Intafernes com quase todos os parentes homens (Histórias 3.119). Depois, Dario decreta que em todo o reino “os homens tremam e temam diante do Deus de Daniel” (6:26).
Nenhum registro fora do livro cita Dario, o medo, e ainda se discute quem ele foi. Já os leões eram bem reais: os reis assírios caçavam leões soltos de jaulas, como mostram os relevos de Nínive no Museu Britânico. Rubens pintou Daniel entre eles por volta de 1615, de mãos juntas e olhos erguidos para o céu. E a cena virou expressão: em português, entrar na cova dos leões é enfrentar sozinho um ambiente hostil.
Fontes
- Daniel 5:30–6:28; Ester 1:19; 8:8; 1 Reis 8:46–49; Salmos 55:17
- Deuteronômio 24:16; Hebreus 11:33
- Heródoto, Histórias 3.119
- Relevos da caça aos leões de Assurbanipal, de Nínive, Museu Britânico
- Peter Paul Rubens, Daniel na cova dos leões (cerca de 1614–1616), National Gallery of Art, Washington
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.