A resposta curta
Ciro II, fundador do Império Persa, que conquistou a Babilônia em 539 a.C. A Bíblia se lembra dele como o rei que deixou os judeus exilados voltarem para casa e reconstruírem o Templo de Jerusalém (Esdras 1:1–4). Isaías o chama de “pastor” e “ungido” de Deus, o único estrangeiro que a Bíblia hebraica chama de messias.
Revisado em
Um persa no meio da história de Israel
Ciro II, que a história conhece como Ciro, o Grande, reinou mais ou menos de 559 a 530 a.C. Começou como rei de Anshan, um pequeno reino persa no sudoeste do atual Irã. Em vinte anos dominou os medos, a rica Lídia, na atual Turquia, e por fim a Babilônia. Em outubro de 539 a.C., o exército dele venceu os babilônios em Ópis, à beira do Tigre. Uma crônica babilônica conta que as tropas persas entraram depois na Babilônia sem combate. O império que tinha incendiado Jerusalém caiu sem cerco.
A Bíblia nunca o chama de “o Grande”. Para ela, ele é “Ciro, rei da Pérsia”, e aparece em quatro livros: Isaías, Esdras, 2 Crônicas e Daniel. Em Daniel, o nome dele marca o tempo: o profeta permanece na corte “até o primeiro ano do rei Ciro” (Daniel 1:21).
Pastor e ungido
As palavras mais ousadas sobre Ciro estão em Isaías. Jerusalém está destruída, e uma voz anuncia aos exilados que um rei estrangeiro vai reerguê-la.
que diz de Ciro: ‘Ele é o meu pastor, e realizará toda a minha vontade’, dizendo também de Jerusalém: ‘Ela será construída’; e do templo: ‘Seus alicerces serão lançados.’
Logo depois vem o título: “Assim diz o SENHOR ao seu ungido, a Ciro” (Isaías 45:1). Em hebraico, ungido é mashiach, messias, a palavra usada para os reis e sacerdotes de Israel. Nenhum outro estrangeiro recebe esse nome na Bíblia hebraica. E o texto insiste que Ciro não sabe para quem trabalha: Deus diz duas vezes “embora você não me conhecesse” (Isaías 45:4–5). Mesmo assim, ele vai libertar os exilados “sem preço nem recompensa” (Isaías 45:13).
A maioria dos estudiosos atribui os capítulos 40 a 55 de Isaías a um profeta do exílio, o chamado Segundo Isaías, que escreveu por volta de 540 a.C., com Ciro já em marcha. A leitura tradicional entende que o próprio Isaías de Jerusalém viu Ciro pelo nome, uns 150 anos antes.
A ordem de voltar para casa
O livro de Esdras começa com o decreto que pôs fim ao exílio.
Assim diz Ciro, rei da Pérsia: ‘O SENHOR, o Deus dos céus, me deu todos os reinos da terra; e ele me ordenou que lhe edificasse uma casa em Jerusalém, que fica em Judá.
O mesmo anúncio fecha 2 Crônicas, o último livro da Bíblia hebraica na ordem judaica. Quer dizer: a Bíblia dos judeus termina com a palavra de um rei persa, “e que ele suba” (2 Crônicas 36:23). Ciro ainda devolve os 5.400 utensílios de ouro e de prata que Nabucodonosor tinha levado do Templo (Esdras 1:7–11). Até o cedro do Líbano volta a descer pelo mar até Jope, como no tempo de Salomão, com licença de Ciro (Esdras 3:7). A primeira leva somou 42.360 pessoas (Esdras 2:64), e muita gente preferiu ficar na Babilônia.
O Cilindro de Ciro
Em 1879, o arqueólogo Hormuzd Rassam encontrou na Babilônia um cilindro de argila em forma de barril, escrito em cuneiforme babilônico. Hoje ele fica no Museu Britânico, em Londres. Nele, Ciro conta que Marduk, o deus da Babilônia, o escolheu, que entrou na cidade em paz e que devolveu os deuses de várias cidades aos seus templos, reunindo os seus povos e mandando-os de volta para casa. Judá e Jerusalém não são citados. Mas a política descrita é a mesma que Esdras registra.
Já houve quem chamasse o cilindro de primeira declaração de direitos humanos. A maioria dos historiadores vê ali propaganda real, no velho estilo da Mesopotâmia, feita para mostrar o conquistador como libertador. Uma réplica está na sede da ONU, em Nova York. Ciro morreu em 530 a.C., segundo Heródoto numa batalha a leste do mar Cáspio. O túmulo dele continua de pé em Pasárgada, no Irã.
Fontes
- Isaías 44:24–45:13
- Esdras 1:1–11; 2:64; 3:7; 6:1–15
- 2 Crônicas 36:22–23; Daniel 1:21; 6:28; 10:1
- Cilindro de Ciro, Museu Britânico, Londres (achado na Babilônia em 1879)
- Crônica de Nabonido (ABC 7), sobre a queda da Babilônia em 539 a.C.
- Heródoto, Histórias 1.201–214
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.