A resposta curta
Porque Nínive mudou de rumo. Jonas 3:10 diz que Deus “viu as obras deles, que se desviaram do seu mau caminho”, e desistiu do castigo. O último versículo traz a razão de Deus: mais de 120 mil pessoas “que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda”, e muitos animais.
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A cidade dá meia-volta
O aviso de Jonas não oferecia saída nenhuma (a mensagem de cinco palavras). Nínive procurou uma assim mesmo. “O povo de Nínive creu em Deus” (Jonas 3:5), com o mesmo verbo hebraico que Gênesis usa quando Abraão “creu no SENHOR” (Gênesis 15:6). Todos jejuaram e vestiram pano de saco, “desde o maior até o menor deles”. O rei tirou o manto real, sentou-se nas cinzas e baixou um decreto.
mas que se cubram de pano de saco, tanto homem quanto animal, e clamem fortemente a Deus. Sim, que cada um se desvie do seu mau caminho e da violência que há em suas mãos.
Violência, hamas em hebraico, é o mesmo pecado que trouxe o Dilúvio (Gênesis 6:11). Os rabinos levaram ao pé da letra a frase sobre as mãos. No Talmude, Shmuel ensina que até o ninivita que tivesse roubado uma viga e a usado no próprio palácio derrubaria o palácio inteiro para devolvê-la (Taanit 16a). Arrepender-se incluía devolver, não só chorar.
Por que até os animais vestiram pano de saco
O decreto inclui o gado e os rebanhos: nem comida, nem água, e pano de saco “tanto homem quanto animal”. Para nós soa esquisito, mas não para o mundo antigo. Heródoto conta que os soldados persas, de luto pelo general Masístio, rasparam as crinas dos cavalos e das bestas de carga (Histórias 9.24). O livro de Judite, que está nas Bíblias católicas, mostra o povo de Jerusalém pondo pano de saco até nos animais (Judite 4:10). Os bichos eram parte da casa, e a casa inteira guardava luto.
Nem todo leitor se comoveu. No Talmude de Jerusalém, o rabino Shimon ben Lakish chama aquilo de esperteza: os ninivitas separaram os bezerros das mães para que todos mugissem, e disseram a Deus que, se ele não tivesse pena deles, eles não teriam pena dos animais (Taanit 2:1). O livro, porém, leva os animais a sério. As últimas palavras dele, em hebraico, são “e muitos animais”.
As razões de Deus
Deus voltou atrás, e Jonas explodiu: sempre soube que Deus é “gracioso e misericordioso” (por que ele fugiu). Sentou-se fora da cidade, feliz com uma trepadeira que lhe dava sombra, até que um verme a matou. Então Deus deu a razão que fecha o livro.
Você se importou com a trepadeira, pela qual você não trabalhou, nem a fez crescer; que nasceu em uma noite e pereceu em uma noite. Não deveria eu me importar com Nínive, aquela grande cidade, na qual há mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e também muitos animais?
O raciocínio vai do menor para o maior: você sofreu por uma planta que nem plantou; e eu não posso sofrer por uma cidade que eu fiz? Quem não distingue a direita da esquerda pode ser criança pequena, ou gente que nunca teve chance de aprender. De um jeito ou de outro, a ignorância pesa a favor deles. O profeta Ezequiel põe o mesmo princípio na boca de Deus: “Tenho eu algum prazer na morte do ímpio?” O que Deus quer, diz ele, é que o ímpio mude de caminho e viva (Ezequiel 18:23).
Nínive se arrependeu mesmo?
Nenhum registro assírio fala nisso, e o livro nunca diz o nome do rei; chama-o só de “rei de Nínive”, título estranho para soberanos que se diziam reis da Assíria. Os historiadores lembram que a Assíria viveu anos assustadores na década de 760 a.C.: revoltas, peste e um eclipse total do sol em 15 de junho de 763 a.C., tudo anotado nos registros assírios. Uma cidade com medo talvez ouvisse. Muitos estudiosos leem Jonas como uma história de ensino, escrita mais tarde, sobre um Deus cuja misericórdia alcança até os inimigos de Israel. Leitores judeus e cristãos tradicionais a tomam como história, e Jesus falou dos ninivitas que “se arrependeram ao ouvir a pregação de Jonas” (Mateus 12:41). O perdão não durou para sempre: veja quando Nínive foi destruída.
Fontes
- Jonas 3:5–4:11; Gênesis 6:11; 15:6; Ezequiel 18:23; Mateus 12:41
- Judite 4:10
- Heródoto, Histórias 9.24
- Talmude Babilônico, Taanit 16a; Talmude de Jerusalém, Taanit 2:1
- Crônica epônima assíria, registro de 763 a.C. (o eclipse)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.