A Bíblia · Datas

Quando Nínive foi destruída?

A resposta curta

Em 612 a.C. Uma crônica babilônica guardada no Museu Britânico registra que babilônios, sob o rei Nabopolassar, e medos, sob Ciaxares, cercaram Nínive por uns três meses, tomaram a cidade por volta de agosto e a deixaram em ruínas. Isso foi uns 150 anos depois de Jonas. O último exército assírio resistiu em Harã até 609 a.C.

Revisado em

Quem destruiu Nínive

A melhor testemunha é uma tabuinha de barro, a Crônica da Queda de Nínive, parte das Crônicas Babilônicas do Museu Britânico, publicada por C. J. Gadd em 1923. Ela conta a guerra ano a ano. Em 614 a.C. os medos, vindos das montanhas do atual Irã, tomaram Assur, a velha cidade sagrada da Assíria, e o rei deles, Ciaxares, fez aliança com Nabopolassar, da Babilônia. Em 612 a.C. os dois exércitos subiram juntos o Tigre. Lutaram diante de Nínive do mês de Simanu ao mês de Abu, mais ou menos de junho a agosto, até que lançaram um grande ataque e tomaram a cidade. A crônica fala de um saque enorme e de uma cidade transformada em montes de ruínas. A tabuinha está quebrada justamente no trecho sobre o destino do rei assírio, e a maioria dos historiadores acha que ele morreu na queda.

O império não acabou num dia. Um príncipe assírio foi coroado em Harã, na atual Turquia. Harã caiu em 610 a.C., e a tentativa de retomá-la com ajuda egípcia fracassou em 609 a.C. Naquele mesmo ano, o faraó Neco, que subia para socorrer a Assíria, matou o rei Josias, de Judá, em Megido (2 Reis 23:29; o texto diz que Neco subiu “contra” o rei da Assíria, mas a crônica babilônica mostra o Egito lutando do lado assírio). Em 605 a.C., em Carquemis, a Babilônia esmagou o que restava (Jeremias 46:2).

De Jonas até a queda

  1. Por volta de 780 a.C.: Jonas profetiza no reinado de Jeroboão II, de Israel (2 Reis 14:25).
  2. 763 a.C.: um eclipse do sol, anotado nos registros da própria Assíria.
  3. 722 a.C.: a Assíria toma Samaria e deporta o povo de Israel (2 Reis 17:6).
  4. Por volta de 700 a.C.: Senaqueribe faz de Nínive a capital do império.
  5. De 668 a cerca de 631 a.C.: reinado de Assurbanipal, que reúne ali uma biblioteca famosa.
  6. 614 a.C.: Assur cai diante dos medos.
  7. 612 a.C.: cai Nínive.
  8. 609 a.C.: a última resistência assíria, em Harã.

Ou seja, a cidade que Jonas viu ser poupada durou mais um século e meio, e nesse tempo virou a capital mais temida do mundo.

Os profetas que viram o fim chegando

Um livro inteiro da Bíblia trata dessa queda. Naum, profeta de Judá, escreve “uma revelação sobre Nínive” (Naum 1:1), com carros de guerra nas ruas e tesouros levados embora: “As comportas dos rios são abertas, e o palácio se dissolve” (2:6). O veredito é sem piedade.

Acontecerá que todos os que olharem para você fugirão de você, e dirão: ‘Nínive está devastada! Quem lamentará por ela?’ Onde buscarei consoladores para você?

Naum 3:7

O livro de Naum, como o de Jonas, termina com uma pergunta, e Sofonias anunciou o mesmo fim (onde fica Nínive hoje). O livro de Tobias, presente nas Bíblias católicas, mostra o velho Tobias recebendo a notícia antes de morrer (Tobias 14:15). O livro aponta como conquistadores Nabucodonosor e Assuero; a história diz Nabopolassar, pai de Nabucodonosor, e Ciaxares.

Uma enchente e uma fogueira

Os gregos transformaram a queda em lenda. Diodoro da Sicília, seguindo o antigo e pouco confiável Ctésias, conta que um oráculo prometera que Nínive só cairia quando o rio se voltasse contra ela. No terceiro ano do cerco, escreve ele, o rio encheu com as chuvas e derrubou um trecho da muralha, e o último rei, que os gregos chamavam de Sardanápalo, queimou-se no palácio com os tesouros e as mulheres (Biblioteca Histórica 2.26–27). Muitos leitores ligaram essa enchente às “comportas dos rios” de Naum. Byron fez de Sardanápalo uma peça em 1821, e Delacroix pintou a morte dele em 1827, num quadro que hoje está no Louvre. Heródoto diz apenas que os medos tomaram Nínive (Histórias 1.106). Dois séculos depois, o soldado grego Xenofonte passou pelas muralhas vazias e chamou o lugar de Méspila, sem nunca dizer Nínive.

Fontes

  • Crônica da Queda de Nínive (ABC 3), Museu Britânico BM 21901; C. J. Gadd, The Fall of Nineveh (1923)
  • Naum 1:1; 2:6–9; 3:1–19; Sofonias 2:13–15; Tobias 14:15
  • 2 Reis 14:25; 17:6; 23:29; Jeremias 46:2
  • Diodoro da Sicília, Biblioteca Histórica 2.26–27; Heródoto, Histórias 1.106; Xenofonte, Anábase 3.4.10–12

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.