A Bíblia · História

O que aconteceu com as dez tribos perdidas de Israel?

A resposta curta

Em 722 a.C. a Assíria conquistou Samaria, capital do reino de Israel, no norte, e deportou boa parte do povo para a Assíria e a Média (2 Reis 17:6). Com o tempo, os exilados se misturaram aos povos vizinhos; outros ficaram na terra ou fugiram para Judá. Ninguém consegue rastreá-los, e a lenda os pôs por toda parte.

Revisado em

Por que dez tribos

Depois da morte de Salomão, por volta de 931 a.C., o reino se partiu em dois, como conta por que o reino de Israel se dividiu. Um profeta já tinha rasgado uma capa nova em doze pedaços e dito a Jeroboão: “Tome dez pedaços” (1 Reis 11:31). As dez tribos do norte formaram o reino de Israel. Judá, com Benjamim, ficou com a linhagem de Davi em Jerusalém.

O que aconteceu em 722 a.C.

Israel estava no caminho da Assíria, o grande império da época, que mantinha os povos vencidos quietos mudando-os de lugar no mapa. O primeiro golpe veio por volta de 732 a.C., quando Tiglate-Pileser III tomou a Galileia e Gileade e levou o povo cativo (2 Reis 15:29). Depois o rei Oseias parou de pagar tributo e foi buscar ajuda no Egito. A Assíria cercou Samaria por três anos.

No nono ano de Oseias, o rei da Assíria tomou Samaria e levou Israel cativo para a Assíria, e os colocou em Hala, e junto a Habor, o rio de Gozã, e nas cidades dos medos.

2 Reis 17:6

O Habor é o rio Khabur, no nordeste da Síria de hoje, onde ficava Gozã, e as cidades dos medos, no noroeste do atual Irã. O livro dos Reis diz que foi Salmaneser V quem começou o cerco (17:3–5; 18:9). O sucessor dele, Sargão II, assumiu a vitória nas inscrições do seu palácio em Khorsabad e deu um número: 27.290 pessoas deportadas. Depois a Assíria trouxe outros povos para as cidades de Samaria, o começo da briga contada em por que judeus e samaritanos se odiavam.

Perdidas ou espalhadas?

As tribos não sumiram de um dia para o outro. A maioria dos historiadores acha que os deportados se misturaram à população local em poucas gerações; documentos assírios das décadas seguintes citam pessoas com nomes israelitas, inclusive soldados. Muitos israelitas nunca foram deportados, e entre os seus descendentes estão os samaritanos. Outros fugiram para o sul: muitos arqueólogos acham que refugiados do norte ajudam a explicar por que Jerusalém cresceu várias vezes de tamanho no fim do século VIII a.C. As Crônicas contam que Ezequias convidou Efraim e Manassés para a sua Páscoa, e alguns foram (2 Crônicas 30:1, 11). Séculos depois, Lucas ainda conhece uma profetisa, Ana, “da tribo de Aser” (Lucas 2:36).

As lendas

Os profetas prometiam um reencontro. Isaías, que viveu a queda de Samaria, fala de um dia em que Deus “reunirá os exilados de Israel” (Isaías 11:12). A expressão “dez tribos perdidas” não está na Bíblia, mas a esperança virou lenda.

  • Além do Eufrates. Flávio Josefo, no século I d.C., diz que as dez tribos ainda vivem além do Eufrates, uma multidão grande demais para contar (Antiguidades 11.133). O apocalipse de 2 Esdras, também chamado 4 Esdras, as manda numa viagem de um ano e meio até uma terra chamada Arzareth (2 Esdras 13:40–45).
  • Elas vão voltar? Na Mishná, o rabino Akiva diz que não, lendo “os lançou em outra terra, como se vê no dia de hoje” (Deuteronômio 29:28) como um dia que não volta mais. O rabino Eliezer responde que, depois do escuro, vem a luz (Sanhedrin 10:3).
  • Viajantes e teorias. Em 1650, Menasseh ben Israel, rabino de Amsterdã nascido numa família de cristãos-novos portugueses, defendeu em A Esperança de Israel que havia israelitas na América do Sul. E o décimo Artigo de Fé dos santos dos últimos dias espera “a restauração das Dez Tribos”.
  • Comunidades de hoje. Em 1973, o rabino-chefe sefardita de Israel, Ovadia Yosef, reconheceu os Beta Israel da Etiópia como descendentes de Dã, e em 2005 um dos seus sucessores, Shlomo Amar, aceitou os Bnei Menashe, do nordeste da Índia, como descendentes de Israel.

Nenhuma dessas teses pode ser provada, e poucas podem ser descartadas. O que a história diz é mais simples: em 722 a.C. um reino pequeno caiu diante de um império, e o seu povo foi para onde os impérios mandam os povos, para dentro da história dos outros.

Fontes

  • 2 Reis 15:29; 17:1–41; 18:9–12; 1 Reis 11:29–39; 1 Crônicas 5:26; 2 Crônicas 30:1–11; Isaías 11:11–12; Lucas 2:36
  • Sargão II, inscrições de Khorsabad (Grande Inscrição)
  • Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 11.133; 2 Esdras 13:39–47; Mishná, Sanhedrin 10:3
  • Menasseh ben Israel, A Esperança de Israel (1650)

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.