A Bíblia · Números

Qual era o tamanho de Nínive?

A resposta curta

Enorme para a época. No reinado de Senaqueribe, por volta de 700 a.C., as muralhas de Nínive davam uns 12 quilômetros de volta e tinham quinze portas. O livro de Jonas a chama de “cidade extremamente grande, de três dias de caminhada”, com “mais de cento e vinte mil pessoas” que não distinguiam a mão direita da esquerda.

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Muralhas, portas e água

Nínive era antiga muito antes de ser grande. Virou capital da Assíria com Senaqueribe, que reinou de 705 a 681 a.C. e a reconstruiu em escala gigante. A muralha dele, com cerca de 12 quilômetros, cercava uns 750 hectares na margem leste do Tigre, diante da atual Mossul. Para ter uma ideia, é uma área parecida com a de mil campos de futebol. Quinze portas se abriam nela, cada uma com nome próprio, entre elas a Porta de Nergal, guardada por touros alados, e as portas de Shamash e de Adad. Lá dentro se erguiam dois grandes morros, hoje chamados Kuyunjik e Nebi Yunus, com palácios e templos no alto.

Uma cidade desse porte precisava de água. Senaqueribe abriu canais desde as colinas do norte e fez um deles atravessar um vale em Jerwan sobre um aqueduto de pedra, cujas ruínas ainda estão de pé. Com essa água plantou parques e pomares. A assirióloga Stephanie Dalley defende que os famosos Jardins Suspensos, que todo mundo põe na Babilônia, ficavam na verdade aqui (The Mystery of the Hanging Garden of Babylon, 2013).

“Três dias de caminhada”

Jonas descreve a cidade numa linha só.

Então Jonas se levantou e foi a Nínive, de acordo com a palavra do SENHOR. Ora, Nínive era uma cidade extremamente grande, de três dias de caminhada.

Jonas 3:3

O hebraico diz ir gedolah le-Elohim, ao pé da letra uma cidade grande para Deus, jeito hebraico de dizer imensa. Só que três dias a pé é muito mais do que as muralhas de Senaqueribe, que se atravessam em uma ou duas horas. Os leitores explicam a expressão de quatro maneiras.

  • A Grande Nínive. Gênesis já junta Nínive a cidades vizinhas, entre elas Calá, a atual Nimrud, uns 30 quilômetros ao sul: “Nínive, Reobote-Ir, Calá, e Resém, entre Nínive e a grande cidade de Calá” (Gênesis 10:11–12). Vista como uma região só, a “grande cidade” era bem maior que as muralhas.
  • O tempo de uma visita. O estudioso D. J. Wiseman sugeriu que a diplomacia antiga levava três dias: um para chegar, um para tratar do assunto, um para partir. Jonas “começou a entrar na cidade, caminhando a distância de um dia” (3:4).
  • A volta completa. Os gregos davam a Nínive um perímetro de 480 estádios, uns 90 quilômetros, mais ou menos três dias de caminhada (Diodoro da Sicília, Biblioteca Histórica 2.3). O número é lenda, mas mostra o tamanho que a cidade tinha na memória.
  • O exagero de quem conta. Muitos estudiosos leem a frase como o jeito do livro dizer “imensa”, do tamanho que Nínive tinha na imaginação de Israel.

Quanta gente morava lá?

O livro dá mais um número, no último versículo: Deus se importa com “mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem discernir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e também muitos animais” (Jonas 4:11). Se forem crianças pequenas, como pensavam muitos comentaristas antigos, a cidade inteira teria várias vezes isso. Se a frase vale para todo mundo, gente moralmente perdida, então 120 mil é a população toda.

Os registros da própria Assíria mostram capitais contadas em dezenas de milhares. Uma estela de pedra achada em Nimrud, a capital anterior, diz que o rei Assurnasirpal II serviu 69.574 convidados numa festa de dez dias para inaugurar o palácio novo, por volta de 879 a.C. A Nínive de Senaqueribe era maior ainda. Seja como for, o número de Jonas não é absurdo para uma das maiores cidades do mundo antigo.

O que sobrou

Menos de um século depois de Senaqueribe, babilônios e medos romperam as muralhas (quando Nínive foi destruída). O traçado da muralha antiga ainda corta o leste de Mossul, e algumas das portas foram parcialmente reconstruídas no século XX. Os morros, o santuário de Nebi Yunus e o que a guerra fez com eles estão em onde fica Nínive hoje.

Fontes

  • Jonas 3:3–4; 4:11; Gênesis 10:11–12
  • Inscrições de construção de Senaqueribe (as quinze portas de Nínive); aqueduto de Jerwan
  • Estela do Banquete de Assurnasirpal II, Nimrud (cerca de 879 a.C.)
  • Diodoro da Sicília, Biblioteca Histórica 2.3
  • D. J. Wiseman, “Jonah’s Nineveh”, Tyndale Bulletin 30 (1979); Stephanie Dalley, The Mystery of the Hanging Garden of Babylon (2013)

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.