A resposta curta
“Em quarenta dias, Nínive será destruída!” (Jonas 3:4). É toda a pregação que o livro registra: cinco palavras em hebraico, sem pedido de arrependimento, sem motivo e sem nem o nome de Deus. Talvez seja o sermão mais curto da Bíblia. O verbo hebraico também pode querer dizer “transformada”, e Nínive foi.
Revisado em
Cinco palavras
Na primeira vez que Deus mandou Jonas a Nínive, ele fugiu para o lado oposto. Na segunda, a ordem é mais curta e mais firme: “pregue a ela a mensagem que eu lhe dou” (Jonas 3:2). Jonas entra na grande cidade da Assíria e cumpre a tarefa.
Jonas começou a entrar na cidade, caminhando a distância de um dia, e clamou, dizendo: “Em quarenta dias, Nínive será destruída!”
Em hebraico são cinco palavras: od arba’im yom ve-Ninvé nehpakhet. O livro não registra mais nada do que ele disse. Quarenta é o número bíblico do tempo de prova: quarenta dias de chuva no Dilúvio (Gênesis 7:12), quarenta dias de Moisés no monte (Êxodo 24:18), quarenta dias de caminhada de Elias até o Horebe (1 Reis 19:8). A Septuaginta, a antiga tradução grega, diz “três dias”, o que torna o aviso ainda mais urgente.
O que a mensagem não diz
Leia de novo, prestando atenção no que falta. Não há “Assim diz o Senhor”, a fórmula com que os profetas mostram de quem é a palavra. Não há motivo: a cidade nunca ouve a acusação que Deus fez a Jonas, “a sua maldade subiu diante de mim” (1:2). Não há condição, nem chamado à conversão, nem promessa de perdão. Parece menos um sermão e mais uma sentença lida no tribunal.
Mesmo assim, o povo de Nínive “creu em Deus” (3:5), jejuou e se vestiu de pano de saco, e o próprio rei intuiu a saída que a mensagem não mencionava: “Quem sabe se Deus não voltará atrás e se arrependerá?” (3:9). Como a cidade reagiu, e por que Deus a poupou, está em por que Deus poupou Nínive.
Um verbo de mão dupla
A Bíblia Portuguesa Mundial traduz o fim da frase por “será destruída”, e o sentido é esse. Mas o original diz mais. A última palavra, nehpakhet, vem do verbo haphak, virar, revirar. É o verbo do fim de Sodoma e Gomorra: “Ele destruiu aquelas cidades, toda a planície” (Gênesis 19:25). Quem ouvia Jonas pensava em fogo caindo do céu. Só que haphak também quer dizer mudar, transformar, como no salmo: “Tu transformaste o meu pranto em dança” (Salmos 30:11). O comentarista judeu medieval Rashi notou o duplo sentido: a cidade seria derrubada, ou seria transformada. Antes de acabarem os quarenta dias, Nínive estava mesmo de cabeça para baixo, só que do jeito que Jonas não queria.
Uma profecia que falhou?
A desgraça não veio, e foi justamente isso que deixou Jonas furioso (Jonas 4:1–2). O profeta Jeremias explica a regra que a mensagem de Jonas escondia.
No instante em que eu falar a respeito de uma nação e a respeito de um reino, para arrancar, para derrubar e para destruí-lo, se aquela nação, contra a qual falei, se converter da sua maldade, eu me arrependerei do mal que pensava em fazer a ela.
Por isso muitos leitores enxergam uma condição escondida em toda profecia de desgraça. Um aviso que funciona não é previsão errada. É um aviso que cumpriu o seu papel.
O sermão que Jesus citou
Séculos depois, Jesus usou essa pregação de rua contra os próprios ouvintes.
Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração e a condenarão, pois se arrependeram ao ouvir a pregação de Jonas; e eis que está aqui quem é maior do que Jonas.
Cinco palavras, um dia de caminhada e uma cidade inteira de pano de saco. Muito pregador de domingo inveja esse resultado até hoje.
Fontes
- Jonas 1:2; 3:1–10; 4:1–2
- Septuaginta, Jonas 3:4
- Gênesis 7:12; 19:25; Êxodo 24:18; 1 Reis 19:8; Salmos 30:11
- Jeremias 18:7–10; Mateus 12:38–41; Lucas 11:30
- Rashi, comentário a Jonas 3:4
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.