A resposta curta
Porque Victor Frankenstein, como Prometeu, toma um poder que pertencia aos deuses e paga por isso. O romance de Mary Shelley saiu em 1818 como Frankenstein, ou o Prometeu moderno. O mito dá a Prometeu dois feitos: roubar o fogo para os humanos e, em autores posteriores, moldá-los do barro. Victor fabrica um homem e lhe dá vida.
Revisado em
A folha de rosto de 1818
Frankenstein, ou o Prometeu moderno saiu em Londres em 1º de janeiro de 1818, em três volumes, sem o nome da autora. Mary Shelley tinha começado o livro no verão de 1816, perto de Genebra, quando Lord Byron desafiou os hóspedes a escrever histórias de fantasmas; ela tinha dezoito anos. A folha de rosto traz uma segunda pista, versos do Paraíso perdido, de Milton, em que Adão questiona o criador:
Pedi-te eu, Criador, que do barro me moldasses homem? Pedi-te que me tirasses da escuridão?
Subtítulo e epígrafe apontam para o mesmo lado. É uma história sobre fabricar um ser vivo, e sobre o que o criador deve à criatura.
Dois Prometeus num nome só
Os mitos antigos dão a Prometeu dois grandes feitos. O primeiro é o fogo. Em Hesíodo, ele o rouba para os humanos num talo de funcho, e em Prometeu acorrentado, a peça atribuída a Ésquilo, ele enumera tudo o que veio daí: ler as estrelas, os números, a escrita, os animais domados, os navios, os remédios, os metais. E aponta o fogo como a raiz de tudo:
Eu procurei e guardei num talo de funcho a fonte roubada do fogo, que se revelou para os mortais mestra de todas as artes e caminho para grandes feitos. Essa é a ofensa pela qual pago a pena, pregado em grilhões sob o céu aberto.
O segundo feito vem de autores posteriores. “Prometeu moldou os homens com água e terra”, diz Apolodoro (1.7.1), e Ovídio oferece, como uma das origens possíveis da humanidade, o filho de Jápeto moldando terra misturada com água da chuva à imagem dos deuses (Metamorfoses 1.76–88).
O cientista de Mary Shelley faz as duas coisas. Monta um homem e se apodera da força que lhe dá vida. Victor conta que, numa noite sombria de novembro, reuniu os instrumentos “para infundir uma centelha de vida na coisa sem vida que jazia a meus pés” (volume 1, capítulo 4). Depois vem o castigo, tão certo quanto a águia: a criatura que ele abandona destrói as pessoas que ele ama, e Victor morre longe, no Ártico, ainda no encalço dela.
O Prometeu de Percy Shelley
Dois anos depois, em 1820, o marido de Mary, Percy Bysshe Shelley, publicou Prometeu desacorrentado, um drama escrito quase todo em Roma, entre as ruínas das Termas de Caracala. Ésquilo tinha escrito uma continuação com esse nome, hoje perdida; pelo que Shelley entendia, nela o Titã e Zeus faziam as pazes depois que o segredo sobre Tétis vinha à tona (o segredo). Shelley não queria trégua. No prefácio, diz que era “avesso a um desfecho tão fraco quanto o de reconciliar o Campeão com o Opressor da humanidade”. Na versão dele, o tirano cai e Prometeu sai livre. Byron, naquele mesmo verão de 1816, tinha escrito um poema chamado Prometheus.
O que quer dizer prometeico
Desses livros vem o adjetivo. Prometeico é o trabalho ousado, original e criativo que vai além dos limites impostos, quase sempre com a sugestão de que haverá um preço. A ciência também guardou o nome: o elemento 61, identificado nos anos 1940, é o promécio. Escritores ainda recorrem à palavra sempre que surge um poder novo, às vezes como elogio, às vezes como alerta. O fogo de Prometeu, ao contrário do jarro de Pandora, era para ser uma bênção. Mary Shelley pergunta o que acontece quando quem dá o presente vai embora.
Fontes
- Mary Shelley, Frankenstein; or, The Modern Prometheus (Londres, 1818), volume 1, capítulo 4
- John Milton, Paraíso perdido 10.743–745
- Percy Bysshe Shelley, Prometheus Unbound (1820), prefácio
- Ésquilo, Prometeu acorrentado 109–113 e 442–506
- Apolodoro, Biblioteca 1.7.1
- Ovídio, Metamorfoses 1.76–88