A resposta curta
Para ver se tinham mudado, embora o Gênesis não diga isso claramente. Os testes (acusá-los de espiões, prender Simeão, devolver a prata, exigir Benjamim e esconder uma taça no saco dele) repetem o dia da venda, com um filho preferido de Raquel nas mãos deles. A resposta vem quando Judá se oferece como escravo no lugar de Benjamim.
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Por que não o reconheceram
Quando dez irmãos se prostram diante do governador do Egito, “José reconheceu seus irmãos, mas eles não o reconheceram” (Gênesis 42:8). Não é difícil entender. A última imagem que tinham era a de um rapaz de dezessete anos. Agora, uns vinte anos depois, estão diante de um senhor egípcio de barba feita, com nome egípcio, que fala com eles por meio de um intérprete (42:23). E, para eles, aquele irmão tinha sumido de vez: “um já não existe” (42:13). Já eles, pastores barbudos de Canaã, continuavam com a mesma cara.
O teste, passo a passo
O próprio José usa a palavra: “Nisto vocês serão provados” (42:15). Os passos:
- Espiões. Ele os acusa de vir sondar os pontos fracos do Egito e os prende por três dias (42:9–17).
- Um refém. Fica com Simeão, amarrado diante dos olhos de todos, e manda os outros para casa com cereal (42:24).
- A prata. O dinheiro da compra aparece de volta nos sacos. “O que é isto que Deus nos fez?” (42:28).
- Benjamim. Eles não podem voltar sem o irmão caçula. Jacó só cede quando Judá se oferece como garantia do rapaz (43:8–9).
- O banquete. José os senta por ordem de idade, para espanto deles, e serve a Benjamim uma porção cinco vezes maior (43:33–34). Vão se roer de ciúme de um preferido outra vez?
- A taça. A taça de prata do governador é escondida no saco de Benjamim. As condições são claras: o culpado fica como escravo, e os outros podem voltar “em paz para o seu pai” (44:17).
O passo seis é o crime antigo montado de novo. Um filho de Raquel, o preferido do pai, pode desaparecer no Egito, e os irmãos podem voltar para casa de mãos limpas e com uma boa desculpa. E por que Simeão no passo dois? O texto não diz. José tinha acabado de ouvir Rúben, o mais velho, lembrar que tentou salvá-lo, e Simeão era o seguinte. A tradição judaica, por meio de Rashi, acrescenta que foi Simeão quem jogou José na cisterna.
O que José ouviu calado
O primeiro sinal vem cedo, dito em hebraico na frente de um homem que, eles acham, não entende nada:
Eles disseram uns aos outros: “Certamente somos culpados em relação ao nosso irmão, pois vimos a angústia da sua alma, quando ele nos implorou, e nós não quisemos ouvir. Por isso esta angústia veio sobre nós.”
José se afasta e chora. O capítulo 37 nunca contou que José implorou lá do fundo da cisterna. Só ficamos sabendo disso aqui, vinte anos depois, pela memória culpada dos irmãos.
O sinal decisivo é Judá. Ele conta ao governador a história toda da família e repete até a frase que doía, dita pelo pai: “a minha mulher me deu dois filhos” (44:27), como se os filhos de Lia não contassem. Judá já não guarda rancor disso. Só quer poupar o velho. Então se oferece:
Agora, portanto, por favor, deixe o seu servo ficar no lugar do rapaz como escravo do meu senhor; e deixe o rapaz subir com os seus irmãos.
Judá, que um dia propôs vender um irmão como escravo, agora se oferece para ser escravo no lugar de outro.
Teste ou vingança?
Os leitores não concordam sobre José aqui. Alguns ouvem vingança nas palavras duras, ou um homem ferido que ainda não consegue confiar. Outros veem um teste cuidadoso de arrependimento. O pensador judeu medieval Maimônides definiu o arrependimento completo como enfrentar a mesma situação, com a mesma chance de errar, e não repetir o erro. Muita gente enxerga essa definição acontecendo em Judá, no Egito. Seja como for, o teste acaba quando José não consegue mais se segurar (veja José perdoou os irmãos?).
Fontes
- Gênesis 42:1–45:3
- Rashi sobre Gênesis 42:24
- Maimônides, Mishné Torá, Leis do Arrependimento 2:1
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.