A Bíblia · Fatos

Por que Judas traiu Jesus?

A resposta curta

Os Evangelhos não concordam, e nenhum explica tudo. Marcos não dá motivo nenhum. Mateus conta que Judas perguntou aos principais sacerdotes quanto pagariam, e eles pesaram trinta moedas de prata. João o chama de ladrão, que roubava da bolsa comum, e diz que o diabo o levou a isso. Lucas diz apenas que “Satanás entrou em Judas”.

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O que cada Evangelho diz

Em todos os relatos, Judas Iscariotes é “um dos doze”, escolhido com os outros e enviado a pregar. Dois dias antes da Páscoa, os principais sacerdotes querem prender Jesus sem alarde, longe das multidões da festa. Judas oferece o caminho.

Então um dos doze, chamado Judas Iscariotes, foi aos principais sacerdotes e disse: “O que vocês estão dispostos a me dar se eu o entregar a vocês?” Então eles lhe pesaram trinta moedas de prata.

Mateus 26:14–15

É no porquê que os Evangelhos se separam:

  • Marcos, o mais antigo, não dá razão. Judas procura os principais sacerdotes, e só então eles prometem dinheiro (Marcos 14:10–11).
  • Mateus põe o dinheiro no começo: Judas não diz um preço, mas pede um.
  • Lucas aponta uma força por trás dele: “Satanás entrou em Judas” (Lucas 22:3).
  • João diz que ele cuidava da bolsa do grupo e “costumava roubar o que era colocado nela” (João 12:6), e, na ceia, que o diabo já tinha posto a traição no seu coração (João 13:2).

Trinta moedas de prata

Trinta moedas de prata não eram uma fortuna. O Êxodo fixa trinta siclos como o valor pago por um escravo chifrado por um touro (Êxodo 21:32), e em Zacarias um pastor é humilhado com o mesmo salário: “Então eles pesaram o meu salário: trinta moedas de prata” (Zacarias 11:12). Mateus quer que se ouça esse eco. Estudiosos sugerem que eram siclos de Tiro, a prata usada no Templo. Em Marcos, Judas vai aos sacerdotes logo depois que uma mulher, em Betânia, derrama um perfume que valia mais de trezentos denários, quase um ano de salário (Marcos 14:3–11).

O que os leitores imaginaram

Como os Evangelhos deixam lacunas, há dois mil anos os leitores tentam preenchê-las.

  • Ganância, a resposta mais antiga, tirada de Mateus e de João, em que Judas reclama que o perfume deveria ter sido vendido para os pobres (João 12:4–6).
  • Decepção. Alguns autores modernos imaginam um Judas que queria um messias para expulsar Roma e se voltou contra um que não quis lutar. Nenhum Evangelho diz isso.
  • Um plano. O Evangelho de Judas, um texto do século II que o bispo Irineu já conhecia por volta de 180 d.C., e cuja cópia em copta foi publicada em 2006, faz de Judas o único discípulo que entende Jesus. Os primeiros editores leram a traição como uma tarefa dada pelo próprio Jesus; outros estudiosos discordam.
  • Destino. O Jesus de João sabe desde cedo: “um de vocês é um diabo” (João 6:70). Os cristãos discutem há séculos como presciência e liberdade se encaixam.

O beijo

A prisão acontece de noite, entre as oliveiras do Getsêmani, à luz de tochas. Judas chega com um grupo armado enviado pelos principais sacerdotes, e combinou um sinal.

Ora, aquele que o traía lhes havia dado um sinal, dizendo: “Aquele que eu beijar é ele. Prendam-no e levem-no com segurança.” Logo que chegou, aproximou-se dele e disse: “Rabi! Rabi!” e o beijou.

Marcos 14:44–45

O beijo era o cumprimento de um discípulo ao seu mestre. É isso que dói. Lucas dá a Jesus a frase que batizou o gesto para sempre: “Judas, com um beijo você trai o Filho do Homem?” (Lucas 22:48). O verbo grego que se traduz por “trair”, paradidōmi, quer dizer simplesmente entregar. Judas o entrega aos sacerdotes, o conselho o entrega a Pilatos, e Pilatos o entrega aos soldados.

O que o nome virou

Chamar alguém de “Judas” é chamar de traidor, e “beijo de Judas” é a traição disfarçada de carinho. Dante o pôs no fundo do inferno, na boca de Lúcifer, ao lado de Bruto e Cássio, os assassinos de César. Pintores medievais lhe deram cabelo ruivo, que nenhum Evangelho menciona, e muitas vezes uma bolsa de dinheiro; essas imagens depois alimentaram caricaturas de judeus. No Brasil, a malhação do Judas, no Sábado de Aleluia, ainda faz do nome dele um boneco de pano. Para o fim dele, contado de dois jeitos, veja como Judas morreu.

Fontes

  • Mateus 26:14–16, 47–50; 27:3–5
  • Marcos 14:1–11, 43–46; Lucas 22:1–6, 47–48
  • João 6:70–71; 12:1–8; 13:2, 21–30
  • Êxodo 21:32; Zacarias 11:12–13
  • Irineu, Contra as heresias 1.31.1; o Evangelho de Judas (Códice Tchacos, publicado em 2006)
  • Dante, Inferno, canto 34

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.