A resposta curta
Porque era uma descida deserta, perfeita para emboscadas. Em uns 27 quilômetros, a estrada caía cerca de 1.000 metros pelos cânions secos do deserto da Judeia, entre cavernas e curvas, quase sem aldeias nem fontes. Os ladrões vigiavam do alto e sumiam nos desfiladeiros. Foi ali que Jesus situou a parábola do bom samaritano.
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“Descia” não é força de expressão
Um certo homem descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos de salteadores, os quais o despojaram e o espancaram, e se retiraram, deixando-o quase morto.
Jerusalém fica a uns 750 metros acima do nível do mar, no alto dos montes da Judeia. Jericó está a uns 250 metros abaixo do nível do mar, no vale do Jordão. Por isso a Bíblia sempre sobe a Jerusalém e desce de lá. O sacerdote da parábola “descia por aquele caminho” (10:31), deixando para trás a cidade do Templo, e quando Jesus deixa Jericó, vai “subindo para Jerusalém” (19:28). Flávio Josefo calculou a distância em 150 estádios, uns 27 quilômetros, por uma região que ele chamou de deserta e pedregosa (Guerra dos Judeus 4.474).
O deserto logo ali
Saindo da cidade, a estrada cruzava o monte das Oliveiras e passava por Betânia, a aldeia de Lázaro. Poucos quilômetros depois, o verde acaba. Do lado leste dos montes quase não chove: encostas peladas de calcário, ravinas fundas, quase nenhuma fonte e nenhuma aldeia até o oásis de Jericó. Quem levava mercadoria ou dinheiro passava boa parte do dia naquele vazio, sem ninguém para ouvir um grito.
O caminho serpenteava pelas cristas, acima de cânions como o Wadi Qelt, cujas fontes Herodes aproveitou com aquedutos para os palácios de inverno que tinha em Jericó. Cavernas e grotas davam esconderijo de sobra. Um bando podia observar o viajante por uma hora lá de cima, atacar numa curva e sumir.
O livro de Josué cita uma passagem nesse trajeto, a “subida de Adumim”, na divisa entre Judá e Benjamim (Josué 15:7; 18:17). Adumim quer dizer “os vermelhos”, provavelmente por causa da cor das rochas. Jerônimo, que morava ali perto, em Belém, por volta do ano 400, deu ao nome um sentido mais sombrio: lugar de sangue, escreveu, por causa do sangue que os ladrões tantas vezes derramavam ali (Carta 108).
Quem eram os salteadores
A palavra de Lucas é lēstai, bandidos. João a usa para Barrabás (João 18:40), Marcos para os dois homens crucificados com Jesus (Marcos 15:27). Em Josefo, o termo serve tanto para assaltantes de estrada quanto para rebeldes armados. O deserto abrigava foras da lei desde que Davi juntou um bando de endividados e amargurados (1 Samuel 22:2). E havia dinheiro circulando: Jericó era um oásis rico em tamareiras e bálsamo, na rota comercial que vinha do oriente.
Uma estrada com passado
Quem ouvia Jesus conhecia essa descida pelas Escrituras. Davi fugiu por ela quando Absalão se revoltou, enquanto Simei lhe atirava pedras (2 Samuel 16:5–14). E uma história antiga pode estar por trás da parábola.
levaram todos os fracos dentre eles sobre jumentos, e os trouxeram a Jericó, a cidade das palmeiras, aos seus irmãos. Depois, retornaram a Samaria.
Nesse episódio, homens do reino do norte, que tinha Samaria por capital, vestem e alimentam prisioneiros de Judá, cuidam deles e os levam até Jericó. Alguns estudiosos acham que Jesus pensava nisso quando fez de um samaritano aquele que para. Por que essa escolha incomodava tanto está em por que judeus e samaritanos se odiavam.
A estrada hoje
Os peregrinos visitam uma antiga estalagem de beira de estrada apresentada como a hospedaria da parábola, hoje um museu de mosaicos. Martin Luther King Jr. percorreu a estrada velha com a esposa. Em 3 de abril de 1968, véspera do seu assassinato, ele disse a uma multidão em Memphis que entendia por que Jesus a escolheu: um caminho sinuoso, feito para emboscadas. O sacerdote e o levita, disse, se perguntaram o que aconteceria com eles se parassem. O samaritano se perguntou o que aconteceria com o homem se ele não parasse.
Fontes
- Lucas 10:25–37; 19:1–28
- Josué 15:7; 18:17; 2 Samuel 16:5–14; 2 Crônicas 28:8–15
- Flávio Josefo, Guerra dos Judeus 4.474
- Jerônimo, Carta 108 (404)
- Martin Luther King Jr., “I’ve Been to the Mountaintop”, Memphis, 3 de abril de 1968
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.