A resposta curta
Porque ofendeu a música de Apolo. Em Ovídio, Midas assiste a uma disputa entre a flauta de Pã e a lira de Apolo, com Tmolo, o deus da montanha, como juiz. Todos dão a vitória a Apolo, menos Midas, que chama o veredito de injusto. Apolo, então, estica as orelhas dele e as cobre de pelo cinzento: orelhas de burro.
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Longe do ouro, perto da tolice
Depois de se livrar do toque de ouro, o Midas de Ovídio não quer mais saber de riqueza. Troca o palácio pelos bosques e campos e passa a seguir Pã, o deus dos pastores, meio bode, que vive nas cavernas das montanhas. Mas ele continua tão tolo quanto antes, diz Ovídio, e isso vai lhe custar caro outra vez.
Flauta contra lira
No monte Tmolo, a serra íngreme que separa Sardes de uma cidadezinha vizinha, Pã se exibe para as ninfas. Toca melodias alegres na flauta de juncos unidos com cera e se gaba de que a música de Apolo não chega aos pés da dele. Marca-se uma disputa, e o juiz é a própria montanha: Tmolo, um deus velho, senta-se nas próprias encostas, afasta as árvores das orelhas e põe na cabeça uma coroa de folhas de carvalho.
Pã toca primeiro, melodias rústicas que encantam Midas, ali por acaso. Depois vem Apolo, com louros nos cabelos dourados, um manto de púrpura de Tiro arrastando no chão e, na mão esquerda, uma lira enfeitada com pedras preciosas e marfim. O som da lira decide tudo. Tmolo manda Pã baixar a flauta diante dela, e todos aprovam, menos Midas, que acusa o juiz de injustiça.
Orelhas à altura
Apolo decide que orelhas tão obtusas não merecem forma humana. Ele as estica, cobre de pelos cinzentos e as solta na base, para que possam se mexer; o resto de Midas continua humano. Ovídio resume: “Midas tinha orelhas de um burrico de passo lento.”
O castigo segue a lógica de Ovídio, em que cada transformação combina com a culpa. O burro já era, na Antiguidade, a imagem de quem não entende nada, e assim o homem surdo para a beleza ganha as orelhas de um animal tido como bronco. A ideia atravessou os séculos: as escolas de antigamente punham orelhas de burro de papel no aluno que não sabia a lição. Midas esconde as dele sob um turbante púrpura, uma tiara no latim de Ovídio, o chapéu alto dos reis do Oriente.
O barbeiro e os juncos
Só um homem precisa ver as orelhas: o criado que apara o cabelo do rei quando está comprido. O barbeiro não ousa contar a ninguém, mas também não aguenta ficar calado. Então cava um buraco raso, murmura lá dentro como são as orelhas do patrão e tapa tudo com terra. No lugar, nasce um juncal cerrado. Cerca de um ano depois, balançados por uma brisa do sul, os juncos repetem as palavras enterradas e espalham o segredo.
Os juncos não estão ali por acaso. É deles que se faz a flauta de Pã, que em português também se chama siringe: no livro 1, Ovídio conta como a ninfa Siringe virou os juncos do brejo que Pã juntou na primeira flauta. O instrumento que Midas preferiu acaba por denunciá-lo. E uma voz que só repete o que ouviu é também o destino da ninfa Eco, no livro 3.
O mesmo segredo em outras terras
O criado que não consegue guardar o segredo do rei aparece longe da Frígia. Uma lenda irlandesa dá ao rei Labraid Loingsech orelhas de cavalo; o barbeiro conta o segredo a uma árvore, e uma harpa feita com a madeira dela o canta em voz alta. Um conto coreano do Samguk yusa diz que o rei Gyeongmun, de Silla, tinha orelhas de burro, e o único homem que sabia gritou isso num bambuzal, que continuou repetindo ao vento.
O Midas por trás do mito foi um rei de verdade da Frígia, mas nenhum registro antigo diz uma palavra sobre as orelhas dele.
Fontes
- Ovídio, Metamorfoses 11.146–193
- Ovídio, Metamorfoses 1.689–712 (Siringe)
- Samguk yusa (Memórias dos Três Reinos), sobre o rei Gyeongmun de Silla