A resposta curta
Por três motivos, cada um pior que o anterior, segundo Gênesis 37. José levava ao pai notícias ruins sobre os irmãos. Jacó o preferia, por ser o filho da sua velhice e da amada Raquel, e mostrou isso com uma túnica especial. Depois, José contou dois sonhos em que os irmãos se curvavam diante dele.
Revisado em
Três motivos, na ordem do texto
O Gênesis não deixa o ódio dos irmãos no ar. Ele o constrói em três degraus, e cada degrau é pior que o anterior.
O primeiro parece pequeno. Aos dezessete anos, José pastoreia com os filhos de Bila e Zilpa, as servas que deram filhos a Jacó, e volta para casa contando o que viu: “José trazia a seu pai um mau relatório sobre eles” (Gênesis 37:2). O texto não diz o que ele contou, nem se era verdade. Em bom português, José era o dedo-duro da família.
O segundo é o favoritismo. Israel ama José mais que aos outros e deixa isso claro com uma túnica (sobre como ela era de fato, veja a túnica de José era mesmo colorida?). Os irmãos “não conseguiam falar pacificamente com ele” (37:4). No hebraico está a palavra shalom: entre eles não saía nem um cumprimento.
O terceiro são os sonhos, e aqui o texto vai marcando o placar.
Seus irmãos lhe perguntaram: “Você reinará de fato sobre nós? Você de fato terá domínio sobre nós?” Eles o odiaram ainda mais por causa dos seus sonhos e das suas palavras.
O detalhe está no fim: pelos sonhos e pelas palavras. Sonhar não era o problema. Contar era. Depois do segundo sonho, o texto troca de palavra: “Seus irmãos tiveram inveja dele” (37:11). O ódio virou inveja, e a inveja começa a fazer planos.
Por que José era o preferido?
A resposta curta do texto é que José era “o filho da sua velhice” (37:3). Só que Benjamim era ainda mais novo, então a idade não explica tudo. A explicação está na mãe. Jacó trabalhou catorze anos por Raquel e “amou mais a Raquel do que a Lia” (29:30). Raquel passou anos sem conseguir engravidar e, quando José nasceu, disse: “Deus tirou a minha vergonha” (30:23). Ela morreu no caminho de Belém, no parto de Benjamim (35:19). José, o primogênito dela, virou o filho que o pai não conseguia deixar de proteger.
Os irmãos já tinham visto essa hierarquia ao vivo. No dia em que foi ao encontro de Esaú, Jacó organizou a família pela ordem de quem mais queria poupar: “as servas e seus filhos à frente, Lia e seus filhos depois, e Raquel e José na retaguarda” (33:2). Cada irmão sabia em que ponto da fila tinha ficado.
Coisa de família
O favoritismo vinha de longe. Os pais de Jacó também dividiram o amor: “Isaque amava Esaú, porque comia da sua caça. Rebeca, porém, amava Jacó” (25:28). Aquilo terminou numa bênção roubada e num irmão jurando vingança (veja como Jacó roubou a bênção de Esaú). Agora Jacó repetia o erro com os próprios filhos, e os filhos repetiam a raiva.
A tradição judaica também não passa a mão na cabeça de José. Rashi, comentarista do século XI, viu em “ele era um jovem” um sinal de que José se comportava como um adolescente vaidoso, sempre ajeitando o cabelo e a aparência. O texto não desculpa os irmãos, mas também não pinta José como alguém cheio de tato.
Aonde o ódio levou
Em Dotã, eles o veem de longe: “Eis que lá vem o sonhador” (37:19). O primeiro plano é matar. Rúben convence os outros a jogá-lo numa cisterna seca, e Judá propõe vendê-lo (veja por quanto José foi vendido). Séculos depois, Estêvão resumiu a história numa frase: “Os patriarcas, movidos de inveja contra José, o venderam para o Egito” (Atos 7:9). Os sonhos em si, e como se cumpriram, estão em quais foram os sonhos de José.
Fontes
- Gênesis 37:1–36
- Gênesis 25:28; 29:30; 30:22–24; 33:1–2; 35:16–19
- Atos 7:9
- Rashi sobre Gênesis 37:2
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.