A resposta curta
Porque, para quem vivia ali, quase nada mudou. Em 476 não houve cerco de Roma nem grande batalha: o exército da Itália se amotinou, e o oficial Odoacro aposentou o imperador adolescente em Ravena e mandou as insígnias para Constantinopla. Senado, cônsules, tribunais e impostos continuaram. Só décadas depois os cronistas decidiram que aquilo era o fim.
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Nem cerco, nem saque
Imagine Roma em setembro de 476. Nenhum exército diante dos muros, nenhum incêndio, nenhum saque. O que pôs fim ao Império do Ocidente aconteceu longe dali. A corte de 476 ficava em Ravena, protegida pelos pântanos do litoral do Adriático, capital do Ocidente desde 402.
A crise começou no quartel. Os soldados da Itália, quase todos germânicos, exigiam um terço das terras, como outros aliados já tinham recebido. O general Orestes, que tinha posto o filho adolescente no trono, recusou. Um dos oficiais, Odoacro, prometeu as terras, e a tropa o aclamou rei. O Anônimo Valesiano, crônica escrita na Itália no século seguinte, resume o resto em poucas linhas. Odoacro matou Orestes em Placência, a atual Piacenza, e o irmão dele, Paulo, num pinheiral perto de Classe, o porto de Ravena. Entrou em Ravena, depôs o menino e o poupou, diz o cronista, por ser muito jovem e porque era bonito. Ninguém pegou em armas por Rômulo Augústulo.
Um império que já era só casca
Para a maior parte do Ocidente, 476 nem foi o ano da mudança. A Britânia tinha sido deixada à própria sorte por volta de 410. Os visigodos mandavam na Hispânia e no sudoeste da Gália, francos e burgúndios em boa parte do resto, e os vândalos ocupavam a África, com o trigo e os impostos dela, desde 439. Em 476, as ordens de um imperador do Ocidente valiam na Itália e em quase mais nada.
O próprio cargo estava gasto. Desde o assassinato de Valentiniano III, em 455, nove imperadores tinham passado pelo trono em vinte e um anos, quase todos postos e tirados por generais como Ricímero. Um romano dos anos 470 já tinha visto muito imperador cair; mais um era notícia, não tragédia.
O choque tinha vindo antes
A queda que todo mundo sentiu foi a de 410, quando os godos de Alarico saquearam Roma por três dias, a primeira vez em uns oitocentos anos que um inimigo estrangeiro tomava a cidade. Em Belém, o estudioso Jerônimo recebeu a notícia.
A voz me fica presa na garganta e, enquanto dito, os soluços me cortam a fala. A Cidade que tinha tomado o mundo inteiro foi ela mesma tomada.
Agostinho começou A Cidade de Deus em resposta, e em 455 os vândalos voltaram a saquear Roma, por duas semanas. Depois desses golpes, uma troca de comando em Ravena não arrancou lágrimas de ninguém. Não sobrou nenhum lamento como o de Jerônimo para 476.
O que mudou na Itália, e o que não mudou
- O imperador. Odoacro se intitulou rei, não imperador, e devolveu as insígnias imperiais a Constantinopla: um imperador bastava para as duas metades. O imperador do Oriente, Zenão, tinha acabado de recuperar o próprio trono de um usurpador naquele verão. Na Dalmácia, o imperador anterior, Júlio Nepos, manteve o título até 480.
- O Estado. O Senado continuou se reunindo em Roma. Os cônsules continuaram sendo nomeados todo ano. O direito romano seguiu valendo nos tribunais, funcionários romanos continuaram cobrando impostos, e Odoacro cunhava moedas em nome de Zenão.
- O dia a dia. Para um lavrador da Toscana ou um padeiro de Roma, a mudança mal se notava.
O regime seguinte também manteve as aparências. O ostrogodo Teodorico matou Odoacro em 493 e governou a Itália por trinta e três anos com ministros romanos. O senador Boécio foi cônsul sob Teodorico em 510 e depois, na prisão, escreveu A consolação da filosofia, antes de ser executado por volta de 524.
Quem decidiu que 476 foi o fim?
A data foi fixada depois, e bem longe da Itália. Por volta de 518, Marcelino Comes, um cronista de Constantinopla, anotou no ano de 476 que o império ocidental do povo romano tinha perecido com aquele Augústulo. Jordanes copiou a ideia em 551, e muito mais tarde historiadores e livros escolares transformaram 476 na fronteira entre a Antiguidade e a Idade Média. Muitos historiadores situam a verdadeira catástrofe da Itália sessenta anos depois, quando os exércitos de Justiniano disputaram a península com os godos, de 535 a 554, e Roma trocou de mãos várias vezes. Em 476, a vida romana na Itália simplesmente seguiu, com outro chefe.
Fontes
- Anônimo Valesiano 8.37–38
- Jerônimo, Carta 127.12
- Marcelino Comes, Crônica, ano 476; Jordanes, Getica 46.242–243
- Procópio, Guerra Gótica 5.1 (Odoacro e as terras dos soldados)
- Bryan Ward-Perkins, The Fall of Rome and the End of Civilization (2005)