A Bíblia · Expressões

Por que se diz ‘sou como São Tomé, só acredito vendo’?

A resposta curta

Por causa de João 20. Tomé não estava com os discípulos quando Jesus apareceu, e disse que só creria se visse as marcas dos cravos e pusesse a mão no lado dele. Uma semana depois, Jesus volta e o convida a tocar, e Tomé responde: “Senhor meu e Deus meu!” João não diz que ele chegou a tocar.

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O que João conta

Só João tem essa história. Na noite do primeiro domingo de Páscoa, os discípulos estão de portas trancadas quando Jesus aparece no meio deles e mostra as mãos e o lado. Tomé, “um dos doze, chamado Dídimo”, não está lá (João 20:24). Quando os outros contam, ele impõe as suas condições.

Mas ele lhes disse: “A menos que eu veja nas suas mãos a marca dos cravos, e coloque o meu dedo na marca dos cravos, e coloque a minha mão no seu lado, de forma alguma crerei.”

João 20:25

Oito dias depois, com as portas de novo trancadas, Jesus volta e transforma as palavras do próprio Tomé num convite.

Então ele disse a Tomé: “Coloque o seu dedo aqui, e veja as minhas mãos. Estenda a sua mão, e coloque-a no meu lado. Não seja incrédulo, mas crente.”

João 20:27

Tomé responde: “Senhor meu e Deus meu!” (João 20:28). Muitos leitores veem aqui o ponto alto do Evangelho de João: o livro começou com “o Verbo era Deus” (João 1:1), e agora um discípulo diz isso diante dele. Jesus responde com uma frase que passa por Tomé e chega a todo leitor futuro: “Bem-aventurados os que não viram e creram” (João 20:29). Dois versículos depois, João diz por que escreveu o livro: “para que vocês creiam” (João 20:31).

Ver para crer

No Brasil, a cena virou ditado: “sou como São Tomé, só acredito vendo”, ou simplesmente “ver para crer”. Quem diz isso quer prova antes de aceitar uma notícia. Mas o ditado deixa de fora três coisas que o texto conta:

  • Ele não foi o único a duvidar. Lucas diz que os apóstolos acharam o relato das mulheres uma loucura (Lucas 24:11), e Mateus admite que, no monte da Galileia, “alguns duvidaram” (Mateus 28:17). Tomé pede o que os outros já tinham visto.
  • O texto não diz que ele tocou. Jesus oferece; João registra só a resposta. O quadro A incredulidade de São Tomé, de Caravaggio, pintado por volta de 1601, mostra Jesus guiando o dedo de Tomé até a ferida, e foi essa imagem que ficou na memória.
  • A palavra de João não é “dúvida”. É apistos, incrédulo, contra pistos, crente. O apelido veio depois, de pregadores e pintores.

Tomé, o gêmeo

Tomé quer dizer “gêmeo” em aramaico, e Dídimo é a mesma palavra em grego; nenhum Evangelho diz de quem ele era gêmeo. João lhe dá mais duas falas, e as duas complicam o rótulo. Quando Jesus decide voltar à Judeia, onde corre perigo de morte, é Tomé quem diz: “Vamos nós também, para morrermos com ele” (João 11:16). Na última ceia, ele diz em voz alta o que os outros pensavam: “Senhor, não sabemos para onde vais. Como podemos saber o caminho?” (João 14:5). Ouve como resposta: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida.” É mais franco e corajoso do que descrente.

O apóstolo da Índia

A tradição o manda mais longe do que qualquer outro dos doze. Os Atos de Tomé, do século III, o levam à Índia. Os cristãos de São Tomé, em Querala, dizem que ele chegou à sua costa em 52 d.C. e morreu mártir perto da atual Chennai, onde a Basílica de São Tomé fica sobre o seu túmulo tradicional. Uma coleção de ditos achada no Egito em 1945, o Evangelho de Tomé, leva o seu nome. Os ortodoxos chamam o domingo depois da Páscoa de Domingo de Tomé, e os católicos celebram a sua festa em 3 de julho. Os navegadores portugueses deram o nome dele à ilha de São Tomé, na África.

Fontes

  • João 20:19–31; 11:16; 14:5–6; 21:2
  • Lucas 24:11; Mateus 28:17
  • Atos de Tomé (século III); Evangelho de Tomé (Códice II de Nag Hammadi, achado em 1945)
  • Caravaggio, A incredulidade de São Tomé (c. 1601–1602), Galeria de Pintura de Sanssouci, Potsdam

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.