A Bíblia · Tradições

Por que se lê o sacrifício de Isaque no Rosh Hashaná?

A resposta curta

Porque o Rosh Hashaná é um dia de memória, e o sacrifício de Isaque é a lembrança que ele invoca. Gênesis 22 é lido no segundo dia, e o Talmude explica o shofar, um chifre de carneiro: toquem-no diante de mim, diz Deus, e eu me lembrarei da amarração de Isaque como se vocês mesmos tivessem se oferecido.

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Um dia de memória

O Ano-Novo judaico cai em setembro ou outubro. Na mesa, maçã com mel, para o ano ser doce; na sinagoga, o som do shofar. Mas a Torá não chama o dia de Rosh Hashaná nem o liga a Isaque. Ela dá uma data e um som.

No sétimo mês, no primeiro dia do mês, haverá um descanso solene para vocês, um memorial com toque de trombetas, uma santa convocação.

Levítico 23:24

Em hebraico, o memorial é zikhron teruá, uma lembrança feita com um toque. Números 29:1 fala apenas de “um dia de toque de trombetas”. O nome Rosh Hashaná, “cabeça do ano”, vem depois, da Mishná, o código de leis dos rabinos reunido por volta de 200 d.C. Fica a pergunta: lembrar o quê, e quem lembra? Os rabinos acharam a resposta num monte da terra de Moriá.

Dois dias, dois filhos

O Talmude fixou as leituras (Meguilá 31a), e as sinagogas seguem essa ordem até hoje.

  • Primeiro dia. Gênesis 21: “O SENHOR visitou Sara como tinha dito” (21:1), e Isaque nasce. A leitura dos profetas conta a história de Ana, que pede um filho, e “o SENHOR se lembrou dela” (1 Samuel 1:19).
  • Segundo dia. Gênesis 22, a Akedá, que os judeus chamam de amarração de Isaque e os cristãos costumam chamar de sacrifício. Abraão sobe o monte com o filho, amarra o menino sobre o altar e é detido por uma voz do céu. A leitura dos profetas é Jeremias 31, onde Deus diz de Efraim: “ainda me lembro dele com carinho” (31:20).

Segundo o Talmude, Sara, Raquel e Ana foram lembradas por Deus num Rosh Hashaná, o dia em que cada uma viu terminar a longa espera por um filho (Rosh Hashaná 11a). O primeiro dia fala de filhos concedidos. O segundo, de um filho devolvido.

Por que um chifre de carneiro

Abraão levantou os olhos, olhou, e viu que atrás dele havia um carneiro preso pelos chifres em um arbusto. Abraão foi, pegou o carneiro e o ofereceu como holocausto em lugar de seu filho.

Gênesis 22:13

O Talmude traça uma linha reta daquele arbusto até a sinagoga. Rabi Abahu pergunta por que o shofar é feito de chifre de carneiro e responde com a voz de Deus: toquem diante de mim um chifre de carneiro, para que eu me lembre em favor de vocês da amarração de Isaque, filho de Abraão, e conte como se vocês mesmos tivessem se deixado amarrar diante de mim (Rosh Hashaná 16a).

A lei segue a história. A Mishná aceita chifres de vários animais, menos o de vaca (Rosh Hashaná 3:2). O Talmude explica: a vaca evoca o bezerro de ouro, e quem acusa não pode servir de defensor (Rosh Hashaná 26a). Os códigos posteriores preferem o chifre de carneiro, e curvado (Shulchan Aruch, Orach Chaim 586:1). Um midrash chega a seguir os dois chifres do carneiro. O esquerdo soou no Sinai, quando o som da trombeta “se tornava cada vez mais forte” (Êxodo 19:19). O direito está guardado para o dia em que “uma grande trombeta será tocada” (Isaías 27:13).

A oração que pede a Deus que se lembre

A oração adicional do Rosh Hashaná tem uma parte chamada Zikhronot, as Lembranças, feita de versículos em que Deus se lembra. “Deus se lembrou de Noé” (Gênesis 8:1) é um deles. “Eu me lembrarei da minha aliança com Jacó, da minha aliança com Isaque, e também da minha aliança com Abraão” (Levítico 26:42) é outro. A parte termina pedindo que Deus se lembre, com misericórdia, da amarração de Isaque em favor dos seus descendentes. Então o shofar toca.

Com os séculos vieram outras razões. No século X, Saadia Gaon contou dez motivos para tocar o shofar, e a Akedá é um deles. Maimônides ouvia no som um despertador, chamando quem dorme a acordar e examinar os próprios atos (Leis do Arrependimento 3:4). Cristãos e muçulmanos guardam a memória do mesmo teste do seu jeito (qual foi o filho?). Dez dias depois do Rosh Hashaná vem o Yom Kipur, e à tarde se lê o livro de Jonas.

Fontes

  • Gênesis 21:1–34; 22:1–19
  • Levítico 23:23–25; Números 29:1; 1 Samuel 1:1–2:10; Jeremias 31:2–20
  • Mishná Rosh Hashaná 3:2; Talmude Babilônico, Meguilá 31a; Rosh Hashaná 11a, 16a, 26a
  • Pirkei de-Rabi Eliezer 31; Maimônides, Mishné Torá, Leis do Arrependimento 3:4

As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.