Roma Antiga · História

Quais línguas vêm do latim?

A resposta curta

As línguas românicas, nascidas do latim do dia a dia falado na metade ocidental do Império Romano. As cinco maiores são o espanhol, o português, o francês, o italiano e o romeno. Há outras, como o catalão, o galego, o occitano, o sardo e o romanche. O inglês não é uma delas: é uma língua germânica.

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A família

Os linguistas as chamam de línguas românicas, ou neolatinas, de Romanicus, “romano”. Os principais membros, por região:

  • Península Ibérica: português, espanhol, galego e catalão, além do asturiano e do aragonês.
  • França e Bélgica: francês, occitano no sul, franco-provençal em volta de Lyon e Genebra, e valão.
  • Itália e ilhas: italiano, com falares regionais como o napolitano e o siciliano, mais o sardo e o corso.
  • Alpes: romanche na Suíça, ladino e friulano no norte da Itália.
  • Bálcãs: romeno, com o arromeno e outros parentes menores.

Quantas são depende de onde se traça a linha entre língua e dialeto. Juntas, têm perto de 900 milhões de falantes nativos, a maioria de espanhol ou português, e cerca de 200 milhões só no Brasil. Um ramo morreu: o dálmata, falado no litoral do Adriático. O último falante conhecido, Tuone Udaina, da ilha de Krk, morreu em 1898, depois que o linguista Matteo Bartoli registrou o que ele lembrava.

Não é o latim de Cícero

Essas línguas não nasceram do latim elegante de Cícero ou de Virgílio. Nasceram do latim de soldados, comerciantes, colonos e escravos, que os estudiosos chamam de latim vulgar, de vulgus, o povo. Uma lista de correções do século IV, o Appendix Probi, flagra essa língua em ação. Ela manda escrever speculum e não speclum, espelho; oculus e não oclus, olho; auris e não oricla, orelha. Os erros venceram. É deles que vêm o nosso espelho, olho e orelha, o italiano specchio, occhio e orecchio, o francês oreille.

As palavras do cotidiano expulsaram as literárias. O cavalo do latim clássico, equus, perdeu para caballus, o pangaré de carga. Daí o cavalo português, o caballo espanhol, o cheval francês, o cavallo italiano e o cal romeno. Só a fêmea, equa, sobreviveu, na nossa égua e na yegua espanhola. O mesmo com comer: a Península Ibérica ficou com comedere, “comer tudo”, enquanto França, Itália e Romênia preferiram manducare, “mastigar”, de onde vêm manger, mangiare e a mânca.

Como o latim se dividiu

O latim viajou com os exércitos e os colonos de Roma: entrou na Hispânia a partir de 218 a.C., na Gália com a conquista de César, na Dácia, a atual Romênia, com Trajano em 106 d.C. Na metade oriental do império, o grego já era a língua comum, e o latim não se firmou ali, a não ser nos Bálcãs. Quando o império do Ocidente se desfez, no século V, os falares regionais se afastaram ainda mais.

Em 813, a distância ficou oficial. Um concílio da igreja em Tours mandou os padres pregarem na “língua romana rústica”, porque o povo já não entendia sermões em latim. O português tem a sua certidão de nascimento: o testamento do rei D. Afonso II, de 1214, um dos documentos mais antigos escritos na língua. Séculos depois, Olavo Bilac chamaria o português de “última flor do Lácio, inculta e bela”, lembrando a região de Roma onde o latim nasceu.

O romeno é a surpresa. Roma ficou na Dácia só uns 165 anos, até Aureliano se retirar, nos anos 270. Mesmo assim, uma língua latina sobreviveu ali, cercada de línguas eslavas e do húngaro, e ainda se chama română, romana.

Latim escondido no inglês

O inglês é germânico, primo do alemão e do holandês, e não uma língua românica. Mas, depois da conquista normanda de 1066, absorveu milhares de palavras francesas, e mais tarde os eruditos tomaram emprestado direto do latim. Por isso o inglês diz a mesma coisa de três jeitos: kingly, do inglês antigo, royal, do francês, e regal, do latim. Albanês, basco e maltês também beberam muito do latim e das línguas românicas, sem virar uma delas. Nem a queda do império acabou com o latim: só o partiu em pedaços, e cada pedaço virou uma língua.

Fontes

  • Appendix Probi (século IV)
  • Concílio de Tours (813), cânone 17
  • Testamento de D. Afonso II (1214)
  • Olavo Bilac, soneto “Língua portuguesa”
  • Roger Wright, Late Latin and Early Romance (1982)