A resposta curta
Os lotófagos, ou comedores de lótus, são um povo gentil do canto 9 da Odisseia que vive do fruto do lótus. Três batedores de Odisseu provaram o fruto e perderam a vontade de voltar para casa; ele os arrastou chorando até os navios e os amarrou debaixo dos bancos. A tradição grega situou essa terra em Djerba, na Tunísia.
Revisado em
O episódio
É a aventura mais curta da Odisseia, uns vinte versos (9.82–104). Depois do saque de Ísmaro, um vento norte pega a frota perto do cabo Maleia, na ponta sul da Grécia, e a arrasta por nove dias. No décimo, desembarcam numa terra cujo povo se alimenta de uma espécie de flor. Odisseu manda dois homens e um arauto descobrir quem mora ali.
Os moradores não fazem mal a ninguém. Apenas dividem a comida.
Não lhes fizeram mal nenhum, mas lhes deram lótus para comer, e o lótus era tão delicioso que quem o provava deixava de se importar com a volta para casa, e nem queria voltar para contar o que tinha acontecido; queria ficar ali, comendo lótus com os lotófagos, sem pensar mais no regresso.
Odisseu arrasta os três de volta, aos prantos, amarra os homens debaixo dos bancos dos remadores e manda todo mundo embarcar na hora, antes que mais alguém prove o fruto (9.98–104).
Um perigo sem monstro
Ninguém é devorado aqui, e ninguém morre. É isso que torna o episódio inquietante. A ameaça é o esquecimento, e Homero fala dela duas vezes em poucos versos: quem come o lótus esquece o nostos, a volta para casa que move o poema inteiro. O mesmo perigo volta com outras caras. A poção de Circe serve para fazer os homens esquecerem a terra natal (por que Circe transformou os homens em porcos), e Calipso passa sete anos tentando encantar Odisseu para que ele esqueça Ítaca (1.55–59). Monstro se enfrenta. A vontade mansa de não voltar é mais difícil.
Onde ficava, e que lótus era esse?
Homero não dá mapa nenhum; depois do cabo Maleia, a geografia dele vira poesia. Os gregos de séculos depois quiseram um endereço assim mesmo. Heródoto, no século V a.C., põe lotófagos no litoral da Líbia, um povo que vive de um fruto doce como a tâmara e até faz vinho com ele (Histórias 4.177). A tradição acabou fixando a terra deles em Djerba, uma ilha no sul da Tunísia.
Esse lótus não é a flor aquática do Nilo nem a da Ásia. O candidato mais citado é uma jujuba selvagem do norte da África, Ziziphus lotus, um arbusto espinhoso de frutinhos doces; outros pensaram em tâmaras ou em alguma droga. Homero só diz que o fruto era doce como mel (9.94).
Os lotófagos depois de Homero
Em inglês, lotus-eater virou substantivo comum: alguém que leva a vida num conforto sonolento, esquecido das obrigações. O poeta Alfred Tennyson fixou a imagem com “The Lotos-Eaters”, publicado no começo da década de 1830 e reescrito em 1842, em que os marinheiros chegam a uma terra onde parece ser sempre fim de tarde e acabam cantando que não vão mais vagar pelo mar. James Joyce também usou o nome num episódio do romance dele, como conta a página sobre Odisseu e Ulisses. Os três batedores de Homero tiveram mais sorte que os marinheiros de Tennyson: o capitão os amarrou e os levou embora.
Fontes
- Homero, Odisseia 9.82–104 e 1.55–59
- Heródoto, Histórias 4.177
- Alfred Tennyson, “The Lotos-Eaters”, Poems (1842)