A resposta curta
A tradição cristã antiga diz que foi Marcos, companheiro e intérprete de Pedro, embora o Evangelho não traga o nome do autor. A informação vem de Pápias, um bispo que escreveu por volta de 120 d.C., e autores posteriores identificaram esse Marcos com o João Marcos de Atos. A maioria dos estudiosos data o livro entre 65 e 75 d.C.
Revisado em
Um livro sem assinatura
Marcos começa sem autor e sem nenhum “eu”: “Princípio do evangelho de Jesus Cristo, o Filho de Deus” (Marcos 1:1). O título “Segundo Marcos” foi acrescentado quando as cópias começaram a circular. Todo manuscrito que traz título dá esse nome. A pergunta, então, é quem disse primeiro que era Marcos, e se dá para confiar nele.
Pápias e o presbítero
A testemunha mais antiga é Pápias, bispo de Hierápolis, no oeste da atual Turquia, por volta de 120 d.C. Os seus cinco livros se perderam, mas o historiador Eusébio copiou alguns trechos no século IV. Pápias repete o que “o presbítero” costumava dizer. Marcos tinha sido intérprete de Pedro e escreveu com exatidão, mas fora de ordem, o que lembrava das palavras e dos atos do Senhor. Ele mesmo nunca ouviu Jesus. Acompanhou Pedro, que ensinava conforme a necessidade, sem organizar os ditos numa narrativa.
Outros autores seguem a mesma trilha. Ireneu, por volta de 180, diz que Marcos registrou a pregação de Pedro depois da morte de Pedro e de Paulo. Clemente de Alexandria, por volta de 200, diz que Marcos escreveu em Roma, com Pedro ainda vivo. As testemunhas concordam sobre Marcos e Pedro, e discordam sobre a data.
Qual Marcos?
Marcus era um dos nomes mais comuns de Roma, mas o Novo Testamento conhece um Marcos que aparece sempre perto de Pedro e de Paulo. Atos o chama de “João, chamado Marcos” e situa em Jerusalém a casa da mãe dele, onde os fiéis oravam na noite em que Pedro fugiu da prisão (Atos 12:12). Ele partiu com Barnabé e Paulo, voltou no meio do caminho e virou o motivo da separação dos dois (13:13; 15:37–39). Anos depois, Paulo o chama de cooperador e de primo de Barnabé (Filemom 24; Colossenses 4:10). E uma carta em nome de Pedro manda saudações dele a partir de Roma, em código.
Aquela que está na Babilônia, eleita juntamente com vocês, os saúda. O mesmo faz Marcos, meu filho.
Pápias nunca diz João Marcos. A maioria dos autores antigos supôs que fosse um homem só, e muitos estudiosos ainda pensam assim; outros acham que a tradição juntou dois ou três Marcos.
Pistas dentro do Evangelho
- Aramaico traduzido. “Talita cumi!”, explica Marcos, quer dizer “Menina, eu lhe digo, levante-se!” (5:41).
- Costumes explicados. Ele para a narrativa para contar como os fariseus lavam mãos, copos e jarros (7:3–4), como se os leitores nunca tivessem visto aquilo.
- Palavras latinas. As duas moedinhas da viúva valem “um quadrante” (12:42), e o oficial ao pé da cruz é um kentyrion, do latim centurio, onde Mateus e Lucas usam uma palavra grega (15:39).
- Pedro nas duas pontas. Pedro é o primeiro discípulo chamado (1:16) e o último citado pelo nome: “digam aos seus discípulos e a Pedro” (16:7).
Tudo isso combina com leitores de língua grega, em boa parte não judeus, talvez em Roma, embora palavras latinas circulassem pelo império inteiro. E há o momento mais estranho de todos os Evangelhos, na prisão de Jesus.
Um certo jovem o seguia, vestindo apenas um lençol de linho sobre o corpo nu. Os jovens o agarraram, mas ele largou o lençol de linho e fugiu deles nu.
Só Marcos conta isso, e há muito tempo os leitores desconfiam que o autor estava deixando ali a sua assinatura. Nada prova.
Quando, e com que certeza?
Jesus anuncia que não ficará “pedra sobre pedra” do Templo (13:2), e a maioria dos estudiosos data Marcos entre 65 e 75 d.C., perto da revolta judaica e da queda do Templo, em 70. A maioria também acha que foi o primeiro Evangelho escrito, assunto de Qual Evangelho foi escrito primeiro? Sobre Pápias, as opiniões se dividem. Os céticos veem uma igreja do século II ligando um livro anônimo a um apóstolo. Outros, como Richard Bauckham, ouvem nele a memória de quem conheceu as testemunhas. Alexandria passou a honrar Marcos como o seu primeiro bispo, e Veneza, que levou as relíquias dele em 828, ainda tem o leão alado de São Marcos na bandeira.
Fontes
- Marcos 1:1, 16; 5:41; 7:3–4; 12:42; 13:2; 14:51–52; 15:39; 16:7
- Atos 12:12, 25; 13:13; 15:37–39; Colossenses 4:10; Filemom 24; 1 Pedro 5:13
- Pápias, citado em Eusébio, História Eclesiástica 3.39.15
- Ireneu, Contra as Heresias 3.1.1; Clemente de Alexandria, em Eusébio, História Eclesiástica 6.14.6–7
- Richard Bauckham, Jesus and the Eyewitnesses (2006)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.