A resposta curta
Para os católicos, sim: Jesus deu a Pedro “as chaves do Reino dos Céus” (Mateus 16:19), e cada bispo de Roma é o seu sucessor. Historicamente, o Novo Testamento nunca chama Pedro de papa nem de bispo de Roma, o título veio séculos depois, e ortodoxos e a maioria dos protestantes leem os mesmos versículos de outro jeito.
Revisado em
A pedra e as chaves
Em Cesareia de Filipe, Jesus pergunta aos discípulos quem eles dizem que ele é, e Simão responde: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo.” Só Mateus registra a resposta de Jesus.
Eu também lhe digo que você é Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela. Eu lhe darei as chaves do Reino dos Céus, e tudo o que você ligar na terra terá sido ligado nos céus; e tudo o que você desligar na terra terá sido desligado nos céus.
Em português o trocadilho funciona tão bem quanto no grego: Petros, Pedro, e petra, pedra. Em aramaico o nome era Kepha, e é por isso que o Evangelho de João e Paulo o chamam de Cefas (João 1:42; Gálatas 2:9). As chaves lembram Isaías, onde um administrador do palácio recebe “a chave da casa de Davi” para abrir e fechar (Isaías 22:22). Ligar e desligar eram termos rabínicos para proibir e permitir, e em Mateus 18:18 Jesus dá esse mesmo poder aos discípulos em conjunto.
Pedro no Novo Testamento
Pedro é claramente o primeiro entre os Doze. A lista de Mateus começa assim: “primeiro, Simão, chamado Pedro” (Mateus 10:2). Depois da Páscoa, ouve três vezes que deve cuidar das ovelhas de Jesus (João 21:15–17), e em Atos lidera os fiéis de Jerusalém.
Mas o quadro tem limites. Na reunião de Jerusalém, por volta de 49 d.C., quem dá o parecer final é Tiago, irmão de Jesus (Atos 15:19). Paulo cita “Tiago, Cefas e João” como as colunas (Gálatas 2:9) e conta que enfrentou Pedro face a face em Antioquia (Gálatas 2:11). Nenhum livro do Novo Testamento diz que ele liderou a igreja de Roma, nem cita um sucessor.
Os primeiros bispos de Roma
Os registros mais antigos de Roma apontam para uma igreja guiada por um grupo. A Primeira Carta de Clemente, enviada pela igreja romana por volta de 96 d.C., fala em nome da comunidade inteira e menciona bispos e presbíteros no plural. Escrevendo a Roma por volta de 110, Inácio de Antioquia não cumprimenta nenhum bispo dali, embora cite bispos de outras cidades. A primeira lista dos bispos de Roma vem de Ireneu, por volta de 180: Pedro e Paulo fundaram a igreja e passaram o cargo a Lino, depois vieram Anacleto, Clemente e assim por diante, até Eleutério, o décimo segundo (Contra as heresias 3.3.3). Muitos historiadores, entre eles o católico Eamon Duffy, acham que Roma não teve um bispo único antes de meados do século II.
De onde vem a palavra papa
Papa vem do grego papas, pai. Por muito tempo, a palavra foi usada para muitos bispos, e o chefe da Igreja Copta de Alexandria ainda hoje é chamado de papa. No Ocidente a palavra foi se restringindo ao bispo de Roma, e em 1075 Gregório VII declarou que esse nome era único no mundo. Quando se diz que Pedro foi o primeiro papa, fala-se do primeiro de uma linha de sucessão, não de alguém que usou o título.
Três leituras hoje
- Católicos. Pedro recebeu de Cristo a primazia, e os bispos de Roma a herdam, como definiu o Concílio Vaticano I, em 1870. Um retrato em mosaico de cada papa, de Pedro em diante, corre pelas paredes da Basílica de São Paulo Fora dos Muros, em Roma.
- Ortodoxos. Roma tinha uma primazia de honra, a primeira entre igrejas irmãs, não um governo sobre elas.
- Protestantes. A maioria lê a pedra como a confissão de fé de Pedro, ou como o próprio Cristo, o único fundamento de que Paulo fala (1 Coríntios 3:11). Alguns, como o teólogo luterano Oscar Cullmann, aceitam que a pedra é Pedro, mas não veem sucessão.
A morte dele em Roma e o santuário sob a Basílica de São Pedro estão em Como o apóstolo Pedro morreu?
Fontes
- Mateus 10:2; 16:13–20; 18:18
- João 1:42; 21:15–17; Atos 15:6–21; Gálatas 2:9–14
- Isaías 22:22
- Primeira Carta de Clemente (c. 96 d.C.); Ireneu, Contra as heresias 3.3.3
- Eamon Duffy, Saints and Sinners: A History of the Popes (1997)
- Oscar Cullmann, Peter: Disciple, Apostle, Martyr (1952)
As citações bíblicas são da Bíblia Portuguesa Mundial, que está em domínio público.