História do Brasil · Pessoas

Quem foi Maria Quitéria?

A resposta curta

Foi uma mulher que lutou como soldado na guerra da independência, na Bahia. Filha de um sitiante do interior, saiu de casa em 1822, vestiu-se de homem e se alistou com o sobrenome do cunhado: soldado Medeiros. Descoberta, continuou na tropa até a vitória de 1823 e recebeu de Pedro I a insígnia da Ordem Imperial do Cruzeiro.

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Uma guerra no Recôncavo

Maria Quitéria de Jesus nasceu por volta de 1792, na região de Feira de Santana, no interior da Bahia, filha de um sitiante. Cresceu no campo, longe de Salvador e da política. Em 1822, a política foi até ela.

Naquele ano, antes mesmo do grito do Ipiranga, a Bahia já estava em guerra. Tropas portuguesas do general Madeira de Melo seguravam Salvador. A resposta veio do Recôncavo, as terras em volta da baía de Todos os Santos: fazendeiros, lavradores, libertos, escravizados e indígenas formaram um exército para cercar a cidade. Essa guerra está em A independência do Brasil foi pacífica?.

O soldado Medeiros

Mulher não podia se alistar. Maria Quitéria saiu de casa em 1822, vestiu roupas de homem e se apresentou com o sobrenome do cunhado, Medeiros. Para a tropa, ela era o soldado Medeiros.

O disfarce não durou. Descoberta, ela não voltou para casa: continuou na tropa e lutou na campanha que apertou o cerco a Salvador, até a retirada dos portugueses, em 2 de julho de 1823. A Bahia festeja essa data até hoje como a própria independência, e Maria Quitéria é uma das heroínas do Dois de Julho.

Ela não foi a única mulher dessa guerra. A abadessa Joana Angélica morreu em fevereiro de 1822, tentando barrar a entrada de soldados portugueses no convento da Lapa, em Salvador. E a tradição oral da ilha de Itaparica guarda o nome de Maria Felipa, cuja história não tem registro escrito da época.

A insígnia do imperador

Em 1823, Maria Quitéria foi ao Rio. Recebeu de Pedro I a insígnia de cavaleiro da Ordem Imperial do Cruzeiro, a condecoração que o imperador tinha criado para a coroação, em dezembro de 1822. Uma mulher do interior da Bahia, condecorada como soldado, na corte.

No Rio, ela conheceu a escritora inglesa Maria Graham, que viajava pelo Brasil e a descreveu no diário de viagem publicado em Londres em 1824. Esse encontro é uma das melhores janelas para a vida dela, porque Graham anotou o que viu e ouviu da própria Maria Quitéria.

Como ela é lembrada

Maria Quitéria morreu em Salvador, em 1853, longe da fama. O século XX a trouxe de volta. O retrato de farda que aparece nos livros escolares foi pintado por Domenico Failutti em 1920, quase 70 anos depois da morte dela. Desde 1996, ela é patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Outra mulher decisiva em 1822, num palácio e não num campo de batalha, está em A princesa Leopoldina assinou a independência do Brasil?.

Fontes

  • Maria Graham, Diário de uma viagem ao Brasil (Journal of a Voyage to Brazil, Londres, 1824)
  • Domenico Failutti, retrato de Maria Quitéria (1920), Museu Paulista da USP
  • Exército Brasileiro, patrona do Quadro Complementar de Oficiais (1996)