História do Brasil · Pessoas

Quem traiu Tiradentes?

A resposta curta

O coronel Joaquim Silvério dos Reis, que devia uma fortuna à Coroa do tempo em que cobrava impostos. Convidado para a conspiração, contou tudo ao governador em 15 de março de 1789. Ganhou o perdão das dívidas e o hábito da Ordem de Cristo. Não foi o único a denunciar, mas o nome dele virou sinônimo de traidor.

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Um coronel endividado

Joaquim Silvério dos Reis nasceu em 1756, perto de Leiria, em Portugal, e fez fortuna e dívidas em Minas. De 1782 a 1784, foi contratador das entradas, o imposto sobre as mercadorias que entravam na capitania. O contratador pagava à Coroa um valor combinado e cobrava o imposto por conta própria. A conta dele não fechou, e Silvério terminou devendo uma fortuna ao rei.

Era também coronel de cavalaria e senhor de terras. Disse ter “muitas fazendas e 200 e tantos escravos”. Um homem assim, rico e encrencado com Lisboa, parecia o aliado ideal para quem tramava uma república em Minas. Ele mesmo explicou depois por que os conjurados o procuraram: “por saberem que eu devia a Sua Majestade quantia avultada”. A república perdoaria a dívida.

A conta de Silvério

Ele fez a conta pelo outro lado. Se a revolta vencesse, a dívida sumiria. Se fracassasse, ele iria para a forca junto com os outros. Silvério não quis apostar. Em 15 de março de 1789, foi a Cachoeira do Campo, onde ficava o palácio de campo do governador, o visconde de Barbacena, e contou tudo de viva voz.

Quase um mês depois, pôs a denúncia no papel. A carta começa pela lealdade à rainha e termina com um pedido de misericórdia:

Pela forçosa obrigação que tenho de ser leal vassalo à nossa Augusta Soberana… O prêmio que peço tão somente a Vossa Excelência é o rogar-lhe que, pelo amor de Deus, se não perca a ninguém.

Joaquim Silvério dos Reis ao visconde de Barbacena, carta-denúncia datada de 11 de abril de 1789 (Autos de Devassa, v. 1)

O pedido final soa piedoso. O que veio depois foram prisões em Minas e no Rio, três anos de devassa e um único enforcado, o alferes que falava demais.

Ele não foi o único

A escola costuma apontar um só traidor, mas os autos mostram mais gente falando. Basílio de Brito Malheiro e Inácio Correia Pamplona também denunciaram a conspiração ao governo. Silvério ficou com a fama porque foi o primeiro a falar.

Há ainda um mistério de datas. A ordem que suspendeu a derrama, e com isso tirou da revolta o estopim, leva a data de 14 de março de 1789, véspera da denúncia. O editor dos Autos de Devassa desconfia que Barbacena a tenha antedatado e que ela seja do dia 17, dois dias depois de ouvir Silvério.

O que ele ganhou e o que perdeu

A Coroa recompensou o denunciante. Silvério teve as dívidas perdoadas e recebeu o hábito da Ordem de Cristo, uma honraria cobiçada no império português. Mas o prêmio não lhe trouxe boa fama. O nome dele virou sinônimo de traidor, e foi longe de Minas, em São Luís do Maranhão, que ele morreu, em 1819.

Para conhecer os outros conspiradores e o plano que ele entregou, leia O que foi a Inconfidência Mineira?. Para saber o que eles pensavam das pessoas escravizadas, inclusive as duzentas e tantas do próprio Silvério, veja Os inconfidentes queriam acabar com a escravidão?.

Fontes

  • Joaquim Silvério dos Reis ao visconde de Barbacena, carta-denúncia datada de 11 de abril de 1789 (Autos de Devassa, v. 1)
  • Suspensão da derrama pelo visconde de Barbacena, datada de 14 de março de 1789 (Autos de Devassa)
  • Autos de Devassa da Inconfidência Mineira (edição da Câmara dos Deputados e da Imprensa Oficial)
  • Kenneth Maxwell, A devassa da devassa: a Inconfidência Mineira, Brasil e Portugal, 1750–1808 (1977)