A resposta curta
Não como os quadros mostram. Tiradentes era o alferes que mais falava e recrutava, mas a conspiração reunia coronéis, padres, um ex-ouvidor e fazendeiros, que se encontravam em casas como as de Gonzaga e de Cláudio Manuel da Costa. Ele confessou ter planejado tudo, e a sentença o tratou como chefe; a denúncia de Silvério apontava Gonzaga.
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O herói no centro do quadro
Nas pinturas e nos livros de escola, Tiradentes aparece no meio da cena: barbado, de pé, falando a homens sentados. É a imagem que a República fixou depois de 1890, quando o adotou como mártir. Os autos da devassa contam uma história menos lisonjeira para a lenda e mais interessante para quem gosta de história.
Um alferes entre graúdos
Tiradentes tinha o posto mais baixo de oficial dos Dragões de Minas. Os outros estavam muito acima dele. Tomás Antônio Gonzaga, poeta nascido no Porto, tinha sido até pouco antes o ouvidor, o juiz da comarca. Cláudio Manuel da Costa, advogado rico formado em Coimbra, fora secretário de governo. Alvarenga Peixoto era coronel, dono de lavras e cheio de dívidas. O tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrada comandava os próprios Dragões: era o superior do alferes na tropa. Havia ainda padres, fazendeiros e José Álvares Maciel, recém-chegado da Inglaterra.
A conversa corria pelas casas dessa gente graúda, como as de Gonzaga e de Cláudio. Foi nessas salas que o plano ganhou forma: agir no dia da derrama, levar a capital para São João del-Rei, criar uma universidade, desenhar uma bandeira.
O papel do alferes
O papel de Tiradentes era outro: ele era a voz da conspiração fora daquelas salas. Dizia a quem quisesse ouvir que a terra era rica e o povo, pobre. Procurava alguém que lhe traduzisse as leis das colônias americanas. Em 1789, foi ao Rio sondar apoios. O juiz da devassa o acusou de convidar a todos “tão alucinadamente, que nem escolhia pessoas nem ocasião”. Quem recruta à luz do dia é propagandista, não chefe escondido.
Quem os documentos apontam
Outros papéis apontam em outra direção. Na denúncia, Joaquim Silvério dos Reis conta ter ouvido que Gonzaga era o “primeiro cabeça da conjuração”. Gonzaga negou tudo até o fim e foi degredado para Moçambique. Os réus ricos negaram, todos, e se acusaram uns aos outros nas acareações.
Tiradentes fez o contrário. No quarto interrogatório, em 18 de janeiro de 1790, confessou ter sido “quem ideou tudo, sem que nenhuma outra pessoa o movesse”. O juiz queria um culpado, e ele se ofereceu. A carta de clemência de dona Maria I, já assinada, poupava os condenados, menos quem, além de chefe, tivesse pregado a revolta em público. A confissão e o falatório fizeram dele o único que cabia nas duas condições, e por isso só ele foi enforcado.
Então, quem liderava?
Os documentos não apontam um comandante indiscutível, e por isso a pergunta continua aberta. A conspiração era de um círculo da elite de Vila Rica, reunido em salas como as de Gonzaga e de Cláudio, com Tiradentes como o recrutador que mais se expôs. A sentença fez dele o chefe; a República, o herói; os autos mostram um alferes entre coronéis, padres e juízes. O líder barbado dos quadros nasceu depois, em 1890. Quem entregou o grupo está em Quem traiu Tiradentes?.
Fontes
- Quarta inquirição de Tiradentes, Ilha das Cobras, 18 de janeiro de 1790 (Autos de Devassa)
- Denúncia de Joaquim Silvério dos Reis ao visconde de Barbacena, 1789 (Autos de Devassa, v. 1)
- Sentença da Alçada, 18 de abril de 1792
- Kenneth Maxwell, A devassa da devassa: a Inconfidência Mineira, Brasil e Portugal, 1750–1808 (1977)