A resposta curta
Quase. A frase costuma ser citada na primeira pessoa, mas o registro taquigráfico da Câmara mostra Ulysses Guimarães falando no plural, em nome dos constituintes, no discurso da promulgação da Constituição, em 5 de outubro de 1988: “temos ódio à ditadura. Ódio e nojo.” Não era um desabafo só dele. Era a Assembleia falando.
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O que diz o registro
Quarta-feira, 5 de outubro de 1988. No plenário lotado, Ulysses Guimarães, presidente da Assembleia Nacional Constituinte, promulga a nova Constituição e faz o discurso do dia. A frase mais lembrada desse discurso costuma aparecer assim: “Tenho ódio e nojo à ditadura”. O Diário da Assembleia Nacional Constituinte, que publicou o registro taquigráfico da sessão, traz outra coisa.
bradamos por imposição de sua honra: temos ódio à ditadura. Ódio e nojo.
Os verbos estão no plural: bradamos, temos. Quem fala é “nós”, os constituintes que naquele momento promulgavam o texto. E a frase vem em duas partes, com um ponto no meio. Primeiro, o ódio à ditadura. Depois, numa frase curta à parte, o acréscimo: ódio e nojo.
Singular ou plural, faz diferença?
Faz. Na primeira pessoa, a frase vira o sentimento de um político, por mais importante que ele fosse. No plural, Ulysses fala como presidente de uma Assembleia eleita, no dia em que ela encerrava 20 meses de trabalho e entregava ao país a Constituição que substituía a dos generais. Era uma declaração em nome de quem tinha escrito o texto.
Quem estava falando
Ulysses era advogado de Rio Claro, no interior paulista. Em 1964, apoiou a deposição de João Goulart. Logo passou para a oposição, no MDB, partido que presidiu a partir de 1971. Em 1973, lançou uma anticandidatura contra o general Ernesto Geisel, só para usar a campanha como tribuna. Nos comícios de 1984, virou o Senhor Diretas.
Na madrugada de 15 de março de 1985, com Tancredo Neves no hospital, Ulysses era o próximo na linha de sucessão. Defendeu que o vice tomasse posse, e não ele. Quase dois anos depois, assumiu a presidência da Constituinte. A frase contra a ditadura saiu, portanto, de alguém que tinha apoiado a queda de Jango 24 anos antes e passado quase todo esse tempo na oposição.
As outras frases do mesmo dia
O ódio e o nojo não foram a única frase do discurso que ficou. Ulysses contou ter passado 9 mil horas sentado na cadeira de presidente, em 320 sessões. Chamou o texto de “Constituição cidadã”, nome que pegou. Avisou: “A corrupção é o cupim da República.” E terminou voltando a 2 de fevereiro de 1987, o dia em que assumiu o cargo, quando tinha dito:
A Nação quer mudar, a Nação deve mudar, a Nação vai mudar.
No dia da promulgação, retomou só o começo: “A Nação quer mudar.” Fechava assim o círculo aberto 20 meses antes. Como a Constituinte trabalhou, e o que o texto garantiu, está em Por que a Constituição de 1988 é chamada de Constituição Cidadã?.
Ulysses morreu quatro anos depois, em 12 de outubro de 1992, quando o helicóptero em que viajava caiu no mar perto de Angra dos Reis. O corpo nunca foi encontrado. A campanha que fez dele o Senhor Diretas está em O que foi o movimento Diretas Já?.
Fontes
- Diário da Assembleia Nacional Constituinte, 5 de outubro de 1988: discurso de Ulysses Guimarães na promulgação da Constituição (Câmara dos Deputados)
- Discurso de Ulysses Guimarães ao assumir a presidência da Assembleia Nacional Constituinte, 2 de fevereiro de 1987 (Câmara dos Deputados)
- CPDOC/FGV, Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro, verbete “Ulysses Guimarães”
- Boris Fausto, História do Brasil (1994)