A Guerra Fria · Fatos

Como o Muro de Berlim caiu?

A resposta curta

Foi aberto pelos próprios guardas, na noite de 9 de novembro de 1989. Depois de meses de fuga em massa e de protestos, o porta-voz Günter Schabowski anunciou ao vivo uma nova regra para viagens e disse que ela valia “sofort, unverzüglich”, imediatamente. A multidão foi às passagens, e às 23:30 o portão da rua Bornholmer se abriu.

Revisado em

1989, mês a mês

Durante quase toda a década de 1980, o Muro parecia eterno. Até que 1989 acelerou tudo:

  • 2 de maio. A Hungria começa a cortar a cerca na fronteira com a Áustria.
  • 11 de setembro. A Hungria abre essa fronteira aos alemães orientais, e dezenas de milhares vão para o Ocidente.
  • 7 de outubro. Mikhail Gorbachev visita Berlim Oriental para os quarenta anos da RDA.
  • 9 de outubro. Setenta mil pessoas marcham em Leipzig gritando Wir sind das Volk, “nós somos o povo”, e ninguém atira.
  • 18 de outubro. Erich Honecker é derrubado depois de dezoito anos no poder; Egon Krenz assume.
  • 4 de novembro. Centenas de milhares se reúnem num ato em Berlim Oriental.

Em todo esse período, os tanques soviéticos ficaram nos quartéis. Gorbachev tinha dito na ONU que cada país podia escolher o próprio caminho, e em 1989 se recusou a mandar tanques para salvar o regime da Alemanha Oriental.

Um bilhete que ninguém explicou

A nova cúpula do partido queria aliviar a pressão com uma lei de viagens mais frouxa. Na quinta-feira, 9 de novembro, Günter Schabowski, porta-voz do partido, encerrava uma longa entrevista coletiva transmitida ao vivo quando leu um bilhete que Krenz lhe tinha passado. Ele não estava na sala quando a regra foi discutida. Pelo texto, viagens particulares ao exterior podiam ser pedidas sem as exigências de costume, e quem quisesse sair de vez podia usar qualquer passagem, inclusive as que davam para Berlim Ocidental. Um repórter perguntou quando aquilo entrava em vigor.

Isso entra em vigor, pelo que eu sei… isto é, imediatamente, sem demora.

Günter Schabowski, entrevista coletiva, Berlim Oriental, 9 de novembro de 1989 (sofort, unverzüglich)

As palavras em alemão que correram o mundo foram sofort, unverzüglich. A regra só deveria valer na manhã seguinte, com pedidos feitos na polícia e vistos carimbados. Ninguém tinha avisado Schabowski. Em poucas horas, a televisão da Alemanha Ocidental, a que a maioria dos alemães orientais assistia, dizia que os portões do Muro estavam abertos. Ainda não estavam.

O portão da rua Bornholmer

Milhares de moradores de Berlim Oriental foram conferir com os próprios olhos. Na rua Bornholmer, no norte da cidade, o oficial no comando, Harald Jäger, ligou para os superiores várias vezes. A ordem foi deixar passar os mais exaltados e marcar o passaporte deles às escondidas, para que nunca mais voltassem. Isso só atraiu mais gente. Por volta das 23:30, sem ordem de ninguém, Jäger mandou os homens abrirem o portão.

A multidão atravessou a ponte, alguns ainda de pantufas. Em poucas horas, todas as passagens de Berlim estavam abertas, e havia gente dançando em cima do Muro, no Portão de Brandemburgo, e quebrando o concreto a marteladas. Ninguém deu um tiro. O próprio Portão de Brandemburgo só virou passagem em 22 de dezembro de 1989.

Do portão aberto a um só país

Ninguém mandou derrubar o Muro. Ele foi aberto por uma entrevista coletiva que deu errado e pela decisão de um oficial num posto de fronteira. O resto veio em etapas: a primeira eleição livre da RDA, em 18 de março de 1990, a moeda comum com a Alemanha Ocidental a partir de 1º de julho, o Tratado Dois mais Quatro com as quatro potências vencedoras da guerra, em 12 de setembro, e a reunificação, em 3 de outubro de 1990, onze meses depois daquela noite.

Por que o Muro caiu? O estopim foi uma resposta atrapalhada. As causas eram mais profundas: um êxodo que a RDA já não conseguia conter depois que a Hungria abriu a fronteira, multidões que tinham perdido o medo e um Kremlin que não mandaria tanques. Se o discurso de Ronald Reagan, dois anos antes, merece parte do crédito é assunto de outra página; o concreto, e o que sobrou dele, está em Qual era o tamanho do Muro de Berlim?

Fontes

  • Günter Schabowski, entrevista coletiva, Berlim Oriental, 9 de novembro de 1989 (transmissão da televisão da RDA)
  • Tratado sobre a Regulamentação Definitiva referente à Alemanha (Tratado Dois mais Quatro), Moscou, 12 de setembro de 1990
  • Mary Elise Sarotte, The Collapse: The Accidental Opening of the Berlin Wall (2014)
  • Hans-Hermann Hertle, Chronik des Mauerfalls (1996)