A resposta curta
Quis dizer que estava do lado de Berlim, como um berlinense de coração. Em 26 de junho de 1963, em Berlim Ocidental, Kennedy disse “Ich bin ein Berliner”, em alemão correto. A ideia de que ele teria dito “eu sou um sonho” é mito: em Berlim, esse doce se chama Pfannkuchen, e a piada só aparece em 1983.
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O cartão no bolso
Em 26 de junho de 1963, quase dois anos depois de o Muro subir, John F. Kennedy passou um dia em Berlim Ocidental. Olhou o Muro do alto de uma plataforma no Portão de Brandemburgo e de outra no Checkpoint Charlie. Depois, no gabinete do prefeito Willy Brandt, na Prefeitura de Schöneberg, pediu algumas palavras em alemão. O intérprete, Robert Lochner, escreveu as frases, e Kennedy as copiou do jeito que soavam para ele.
O cartão existe até hoje, com “Ish bin ein Bearleener” e, para o latim, “Kiwis Romanus sum”. Lá fora, a praça e as ruas em volta estavam lotadas. Kennedy começou por Roma:
Há dois mil anos, o maior orgulho era dizer ‘civis Romanus sum’. Hoje, no mundo da liberdade, o maior orgulho é dizer ‘Ich bin ein Berliner’. Agradeço ao meu intérprete por traduzir o meu alemão!
Civis Romanus sum, “sou cidadão romano”, era a frase que protegia um viajante em qualquer canto do império antigo, como protegeu o apóstolo Paulo. No fim do discurso, Kennedy voltou ao alemão:
Todos os homens livres, onde quer que vivam, são cidadãos de Berlim e, portanto, como homem livre, tenho orgulho das palavras “Ich bin ein Berliner”.
Por que o alemão estava certo
Em alemão, quem diz de onde é costuma dispensar o artigo: um nativo diz Ich bin Berliner, sou de Berlim. Kennedy não estava dizendo que era de Berlim. Queria dizer que se colocava do lado da cidade, como um dos seus, e para esse sentido figurado ein Berliner, com o artigo, é alemão correto. Foi assim que a multidão entendeu. Ninguém riu da gramática; a única piada daquele trecho foi do próprio Kennedy, quando agradeceu ao intérprete por traduzir o alemão dele.
E o sonho?
No Brasil, o mito chegou como “eu sou um sonho”. A confusão vem do doce: em boa parte da Alemanha, a bola de massa frita recheada de geleia, parecida com o nosso sonho de padaria, se chama Berliner. Só que em Berlim ela se chama Pfannkuchen, e quem estava na praça não pensou em doce nenhum. Fora de Berlim, o contexto resolve, do mesmo jeito que ninguém confunde um morador de Frankfurt com uma salsicha quando ele diz que é Frankfurter.
A piada não tem fonte em 1963. A aparição mais antiga que se conhece está no romance de espionagem Berlin Game, do inglês Len Deighton, publicado em 1983, vinte anos depois do discurso. Depois, jornais a repetiram como se fosse fato, e ela nunca mais parou de circular.
Por que Kennedy foi a Berlim
A visita era uma promessa de apoio. Em 1961, os Aliados ocidentais tinham protestado contra o Muro e mais nada, e Brandt tirou uma lição: ninguém ia derrubá-lo. Kennedy deu à multidão um refrão, “Há quem diga que o comunismo é o caminho do futuro. Que venham a Berlim”, e chegou a dizê-lo uma vez em alemão, Lass’ sie nach Berlin kommen. Admitiu também que “a democracia não é perfeita, mas nunca tivemos de erguer um muro para manter o nosso povo aqui dentro”.
Berlim Oriental respondeu com uma placa no Portão de Brandemburgo, perguntando quando os compromissos de erradicar o nazismo seriam cumpridos na Alemanha Ocidental e em Berlim Ocidental. Cinco meses depois, Kennedy foi assassinado em Dallas, e a praça em frente à prefeitura hoje leva o nome dele. Vinte e quatro anos mais tarde, outro presidente americano foi ao Muro com uma frase mais dura: veja Quem disse ‘derrube este muro’?
Fontes
- John F. Kennedy, discurso na Rudolph Wilde Platz, Berlim, 26 de junho de 1963 (Public Papers of the Presidents; American Presidency Project)
- Len Deighton, Berlin Game (1983)
- Andreas W. Daum, Kennedy in Berlin (2008)