A resposta curta
Porque Charlie é o C do alfabeto fonético militar. Os Aliados ocidentais deram letras aos postos, pela ordem: Alfa em Helmstedt e Bravo em Dreilinden, na estrada que vinha da Alemanha Ocidental, e Charlie na Friedrichstraße, no meio da cidade, onde soldados aliados, diplomatas e estrangeiros passavam do setor americano para o soviético.
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Alfa, Bravo, Charlie
Ninguém chamado Charlie deu nome ao posto. Charlie é só a letra C no alfabeto fonético que os operadores de rádio usam para soletrar: Alfa, Bravo, Charlie. Berlim Ocidental ficava no meio da Alemanha Oriental, e quem vinha de carro do Ocidente atravessava uns 170 km de autoestrada em território da RDA. Os Aliados ocidentais deram letras aos postos, pela ordem:
- Alfa, em Helmstedt, onde a autoestrada saía da Alemanha Ocidental.
- Bravo, em Dreilinden, onde ela entrava em Berlim Ocidental.
- Charlie, na Friedrichstraße, no meio da cidade, onde o setor americano encontrava o soviético.
O Charlie era a passagem dos militares aliados, dos diplomatas e dos estrangeiros em geral; os moradores de Berlim Ocidental e os alemães ocidentais usavam outras passagens. Do lado americano havia só uma guarita no meio da rua e uma placa avisando, em inglês, russo, francês e alemão, que ali terminava o setor americano. A guarita modesta combinava com a posição dos Aliados: aquilo era uma linha entre setores, não uma fronteira entre países. Em junho de 1963, Kennedy subiu numa plataforma ali para olhar para o Leste, no dia em que disse quatro palavras famosas em alemão.
Um passaporte e um princípio
O nome correu o mundo em outubro de 1961, dez semanas depois de o Muro subir. Na noite de domingo, 22 de outubro, a polícia da Alemanha Oriental parou na Friedrichstraße um carro com placa americana. Dentro estavam Allan Lightner, o diplomata americano mais graduado de Berlim Ocidental, e a mulher, a caminho do teatro, no Leste. A polícia pediu o passaporte, e ele se recusou a mostrar.
Pelos acordos de 1945 entre as quatro potências, funcionários americanos circulavam por todos os setores de Berlim, e só oficiais soviéticos podiam fiscalizá-los. Mostrar documentos à polícia da Alemanha Oriental seria reconhecer a Alemanha Oriental como Estado, e Washington não aceitava isso. A Alemanha Oriental respondia que só estava controlando quem passava pela própria fronteira, na própria capital. O enviado de Kennedy na cidade, o general Lucius Clay, o mesmo que tinha ordenado a Ponte Aérea de Berlim em 1948, mandou soldados armados escoltarem o carro de Lightner a pé, depois mais carros com escolta e, por fim, tanques. Kennedy tinha traçado o limite em julho:
Não podemos permitir, e não vamos permitir, que os comunistas nos expulsem de Berlim, seja aos poucos, seja pela força.
Tanques a noventa metros
No fim da tarde de sexta-feira, 27 de outubro, dez tanques soviéticos subiram a Friedrichstraße e pararam de frente para os tanques americanos, do outro lado da linha, a uns noventa metros. À meia-noite, já havia trinta tanques soviéticos nas imediações. Os comandantes soviéticos concluíram, erradamente, que os americanos queriam romper a nova fronteira. A noite toda, os berlinenses acompanharam tudo das janelas.
Às 10:30 da manhã seguinte, os tanques soviéticos ligaram os motores e recuaram; cerca de meia hora depois, os americanos fizeram o mesmo. Como esse recuo foi combinado ainda se discute: Kruschev escreveu mais tarde que recuou primeiro para os americanos salvarem as aparências, e Robert Kennedy disse que tinha feito o pedido por um canal secreto. Nenhum documento resolve a questão. Um ano depois, as duas potências se encararam de novo, desta vez por causa de Cuba.
Onde está a guarita hoje
O Checkpoint Charlie funcionou até 1990. Em 22 de junho daquele ano, durante as negociações sobre a unidade alemã, a última guarita americana foi retirada por um guindaste. Hoje ela fica no Museu dos Aliados (AlliiertenMuseum), na Clayallee, a avenida que Berlim Ocidental batizou com o nome do general Clay. A guarita que está na Friedrichstraße é uma réplica, a poucos passos de um museu particular sobre as fugas, aberto ao lado da passagem desde os anos 1960.
Fontes
- Foreign Relations of the United States, 1961–1963, vol. XIV: Berlin Crisis, 1961–1962
- John F. Kennedy, pronunciamento pelo rádio e pela televisão sobre a crise de Berlim, 25 de julho de 1961
- AlliiertenMuseum (Museu dos Aliados), Clayallee, Berlim
- Frederick Kempe, Berlin 1961: Kennedy, Khrushchev, and the Most Dangerous Place on Earth (2011)